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| DIVINO Por Tiago Duque
Tio?! Tem camisinha? “Fica decretado
que agora vale a verdade, que agora vale a vida e que, de mãos
dadas, trabalharemos todos pela vida verdadeira”. –Tio?! Tem camisinha? A frase soou abertamente na praça. Olhei para os lados e parei na sombra, me aproximei do banco. Os dois estavam sentados lado a lado. Era um adolescente de dezesseis anos e um jovem de dezoito. Abraçaram-me. Meninos em situação de rua. Apaixonados um pelo outro. Cuidadosos e afetuosos. Não vou afirmar que eles sejam gays, porque “para o garoto de rua não existe gosto e não gosto. Para o garoto de rua existe aquele que é o momento dele”. Foi o que me disse um amigo que já viveu nas ruas e hoje trabalha comigo em um espaço de vivência de crianças e adolescentes em situação de rua ou exploração sexual comercial. Independentemente da minha resposta a pergunta deles, o que quero registrar e contar para todo o mundo é o fato da experiência homoafetiva dos dois serem uma motivação para a proteção. E, aqui, proteção não é somente a busca por preservativos, mas a própria afetuosidade assumida e estampada publicamente na praça. Afinal, estamos mais protegidos e menos vulneráveis quando assumimos nossos desejos; nos sentimos mais fortes quando não precisamos mentir ou esconder nossas práticas sexuais. Esta situação me fez lembrar de uma orientação deste meu amigo já citado. Dizia ele: “ - O garoto de rua quer amor, carinho, mas não é na sua hora, é na hora dele, então, ele tem que pedir”. Foi esta lembrança e o vínculo que já tinha com eles que me fez parar e lhes dar atenção. A camisinha, diferentemente do que muitos defendem, era solicitada ali como um ícone de cuidado, amor, carinho e confiança. Reconhecendo e aproveitando daquela exposição de carinho, convidei-os para fazer o “teste de HIV”, o que muita gente, às vezes por preconceito ou desinformação a respeito da AIDS, tem medo em realizar. Mas, eles toparam imediatamente. No dia seguinte, fomos até o Centro de Orientação e Apoio Sorológico/Testagem e Aconselhamento de DST/AIDS. Este exame (gratuito, confidencial e altamente confiável) é fundamental, não somente para os adolescentes e jovens que vivem nas ruas, mas para qualquer pessoa. Fazer o teste é estar aberto para a elaboração de uma nova visão do seu corpo, postura e práticas cuidadosas consigo e com os demais; além da assimilação de informações que precisam ser valorizadas, isso tudo, independentemente do resultado que possa ter o exame. A busca pela prática do sexo mais seguro entre estes dois enamorados só foi possível porque a rua possibilitou esta liberdade responsável. Explico: A grande maioria dos meninos e meninas abrigados em equipamentos públicos e instituições (inclusive os cumprindo medidas sócio educativas nas FEBENs) não podem ter acesso a camisinha. Mesmo que façam o teste e tenham o resultado positivo. Evidentemente porque não se assume a possibilidade dos mesmos manterem freqüentes relações sexuais nestas instituições e espaços públicos. O mesmo ocorre na maioria das famílias brasileiras, ou é comum mães e pais orientarem seus filhos a proteção e lhes garantir este direito? Nas escolas há uma grande polêmica entre professores e pais em relação a abordagem da temática da sexualidade e da disponibilização do preservativo. Nas igrejas, nem pensar! Fala-se de valores idealizados e nega-se a prática sexual das juventudes. O que predomina nesses espaços é um discurso de que o acesso a camisinha facilita o sexo sem compromisso. Pergunto: As pessoas deixariam de transar porque não tem acesso a camisinha? A conscientização do uso do preservativo já está assimilada por este e pelos demais grupos sociais a esse ponto? Ou, então, as pessoas transam só porque tem acesso ao insumo? A minha prática mostra que a situação de rua, por si só, não expõe estes dois adolescentes a riscos de sexo não seguro em relação a HIV/AIDS. Porque também é verdadeiro este outro depoimento do amigo já citado: “O garoto de rua é o que mais respeita as regras. Porque as regras é o que traz a sua sobrevivência. Eu, por exemplo, tinha três regras: tomar café, almoçar e jantar.” Algumas regras responsáveis e cheias de sentido (neste caso o uso da camisinha) que podem ser elaboradas na rua, não podem ser vivências em outros espaços da sociedade. Aí está o nosso maior pecado: no excesso de cuidado e proteção, cheios de boas intenções, contribuímos, muitas vezes, para tornar esta população mais vulneráveis e em risco. O desafio, ao meu ver, é reconhecermos os Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos desta população e colocá-los intensamente em prática. Assim, tornaremos melhores profissionais e cidadãos. Falo, inclusive, daqueles que não atuam com adolescentes e jovens, mas param o carro nos cruzamentos ou é abordado de outra forma por pessoas em situação de rua. Uma dica: façam como uma amiga minha que é pscicóloga e funcionária pública, ao abrir o vidro do seu carro nos faróis da cidade, sorria e entregue ao adolescente uma camisinha. A caridade desta amiga é bem simples: em vez de dinheiro para o tráfico, proteção para a vida. E, lembrem-se: os preservativos, por lei, devem ser distribuídos a adolescentes e adultos nos centros de saúde, sem necessariamente as pessoas se identificarem. Assim, se o que também disse meu amigo for verdade, que “o mais legal” que nós fazemos é “não procurar saber do passado do garoto de rua, porque o passado dele você vê nos olhos”, percebo que o presente também está contido no seu olhar. Porque, ultimamente, a cada reencontro com esses dois apaixonados, me sinto ainda mais confiante de que eles estão buscando o sexo mais seguro. Por quanto tempo? Não sei. Mas, talvez por um tempo superior aquele que os mesmos teriam se estivessem em suas casas, escolas, igrejas, instituições ou em determinados espaços públicos. Tiago Duque é
Teólogo Leigo e Sociólogo formado pela PUC Campinas, mestrando
em sociologia pela UFSCar e militante do Identidade
– Grupo de Ação Pela Cidadania de Lésbicas,
Gays, Travestis, Transexuais e Bissexuais
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