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DIVINO

Por Tiago Duque
duque_tiago@hotmail.com

A vereadora, a prostituta e a cruz

Estávamos todos lá. Em pé. Bem próximos. Com faixas, cartazes, bandeiras, apitos e gritos, muitos gritos. A idéia era fazer pressão para a aprovação da Moção de Repúdio, de autoria da vereadora Marcela Moreia (PSOL) e do vereador Paulo Búfalo (PSOL), contra as falas transfóbicas e homofóbicas do ex-vice-prefeito, agora recém empossado Deputado Federal, Guilherme Campos (PFL). O infeliz parlamentar se posicionou em público, no último dia 29 de janeiro, contra a exposição “Campinas, travestis contam a sua história”, que fazia parte da semana de comemorações do “Dia da Visibilidade Travesti”. Ele disse: “Deputado fresco, em Campinas. Não sei não! Ainda mais com essa exposição que colocaram no saguão da Prefeitura, que serve só para aumentar ainda mais a fama da cidade”. Mas, segundo seus defensores, Campos fez “brincadeiras” sem a pretensão de ofender.

Por isso, alguns vereadores e uma vereadora, tentaram barrar a aprovação da Moção. Leonice da Paz (PDT) usou do seu direito democrático e justificou-se em seu discurso citando uma das mais populares personalidades bíblicas: Maria Madalena, a “prostituta”. Segundo ela, deveríamos perdoar Campos, porque ele não quis ser preconceituoso. Ela disse também que deveríamos seguir as orientações de Jesus, “jogando a primeira pedra” aquele que nunca errou.

A vereadora utilizou-se do que está registrado no texto bíblico do Evangelho de João 8, 3 - 11. No entanto, nesta passagem bíblica não é citado o nome da mulher adúltera, não era uma prostituta, salva do apedrejamento por Jesus. Mesmo assim, Leonice e muita gente da Igreja, utiliza da imagem de prostituta de Maria Madalena associada a este episódio do Evangelho. Esta imagem foi criada duvidosamente pela história da Igreja Cristã e assumida pela religiosidade popular para se referir a Maria Madalena. Nada há na Bíblia de concreto que nos favoreça a afirmação de que Maria Madalena era prostituta. Maria Madalena aparece explicitamente citada quando é relatado que o túmulo de Jesus está vazio. Ela é a primeira pessoa a chegar no local depois da ressurreição (Jo 20, 1-2).

Travestis, Bissexuais, Lésbicas, Gays e alguns heterossexuais que gritavam a favor da Moção, vaiaram consideravelmente a vereadora, pedido para que ela respeitasse aquele espaço laico e deixasse o discurso religioso de lado.

O desastre interpretativo, ao meu ver, da citação bíblica utilizada pela nobre vereadora me fez escrever este texto. Não me refiro somente a associação de Madalena com a mulher adúltera, ou mesmo com uma suposta prostituta, mas, principalmente, a de Madalena com a do deputado. Como todos sabem, inclusive os ateus, Jesus sempre foi um homem que se expôs ao lado dos mais fracos, daqueles miseráveis e excluídos, marginalizados e pobres, cochos e moribundos, prostituídos e famintos, desesperados e humilhados, pecadores e fracassados. Assim, não é a toa que a mulher adultera foi salva da pena de morte daquele tempo pelo Mestre, mesmos as leis da época legitimando o seu apedrejamento. Logo, também não foi à toa a surpresa daqueles que ouviram o discurso da nobre vereadora diante das travestis, mas relacionando a figura de Madalena com a de Campos.

Nos últimos dois anos, mais de oito travestis foram assassinadas em Campinas, vítimas de intolerância e preconceito. Não é diferente em todas as outras cidades do país onde há esta população. Por isso, defendo aqui a necessidade e a urgência que alguns têm em fazer uma releitura dos Evangelhos a partir dos de baixo, daqueles que mais precisam, dos que eram considerados os prediletos do Cristo. Essa releitura mudaria nossa visão de mundo e nossos discursos, mas também, creio eu, mudaria nossas práticas religiosas e políticas.

A intenção que Leonice teve ao citar o texto bíblico, fez imaginar-me em uma daquelas primeiras missas no Brasil onde a Bíblia era utilizada para garantir o céu àqueles que tinham dotes e eram brancos, e predestinar aqueles negros e indígenas ao inferno. A nobre vereadora fez sentir-me como um crente destas igrejas pentecostais, cheios de culpa por ser gay, a espera de um milagre que não chegará. Naquela primeira sessão do ano de 2007, na solene votação inaugural daquele espaço público, me percebi agredido por alguém que também se diz cristão como eu, mas faz uma leitura da Bíblia tão diferente daquela que eu faço; defendendo uma “brincadeira” que mata tanto quanto uma bala e que se não for combatida, nos causará ainda mais mortes.

A sensação é de que a vereadora, com bons sentimentos cristãos, queria livrar um deputado do “apedrejamento”, mas quase “crucificou uma prostituta”. Ainda utilizando dessa metáfora, a mesma “cruz” que salva, também “mata”. A mesma palavra que “liberta”, também “condena”. Resta-nos saber, quem está ao lado de quem, quem são aqueles que se aproximam da “pecadora caída com medo e a olha nos seus olhos com amor” e quem são aqueles que “gritam com as pedras nas mãos”, defendendo uma “justiça”, que não é “nada justa”.

A Moção de Repúdio contra Campos foi aprovada. Há quem diga que não foi por consciência política da necessidade de combater este tipo de crime (homofobia e transfobia é crime!), mas porque boa parte dos vereadores não entenderam a forma como deveriam votar, confundiram-se com a maneira que a pergunta dos “favoráveis” e dos “contrários” foi feita pela mesa da casa. Bem, se isso for verdade, só revela que as tentativas de “apedrejamentos” de travestis, mesmo que em discursos preconceituosos ou “brincadeiras” de mau gosto, continuarão surgindo entre os parlamentares da terra de Carlos Gomes. Então, lá vamos nós novamente, daqui há algum tempo, defender o perdão (Porque não?), mas sem abrir mão da justiça, nos lindos tapetes azuis da nova Câmara Municipal, com seus velhos e ultrapassados preconceitos.




Tiago Duque é teólogo leigo, socioólogo formado pela PUC-Campinas e Coordenador de Articulação com Movimentos Sociais do Identidade - Grupo de Ação pela cidadania LGTTB.

 



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