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DIVINO

Por Tiago Duque
duque_tiago@hotmail.com]

Afesta

"Fica decretado que nada será obrigado nem proibido.
Tudo será permitido..."
Thiago de Mello

Não havia balões, música, bolo, luzes, presentes e muita gente. Não passávamos de dez. Diferentes idades. Muitas experiências e inúmeros desejos. A festa era interna. Comemorava-se o encontro, objetivo que deveria mover qualquer outra festividade. Um encontro de muitas diferenças, suigeneris.

O grupo que me refiro é ousado. A pretensão é histórica. Formar uma ONG que acolha "hermafroditas psíquicos" - transexuais. Na verdade a ONG já existe. É por isso que não me contive de tanta alegria em poder conviver com pessoas tão especiais. Privilégio que muitos(as) abrem mão. Riqueza que me leva ao compromisso de tornar-me mais humano. Tornamo-nos verdadeiramente humanos quando aprendemos a conviver. Toda a convivência implica em humanidade. Qualquer empecilho que distancia-nos desse valor nos desumaniza.

O lugar era convidativo, imensos pufes coloridos. Artesanato pelas paredes. Acabávamos de nos conhecer e já partilhávamos confidências. Um bonito transexual, muito alegre por ter feito com sucesso a sua cirurgia de construção de um tórax masculino (não precisará nunca mais usar faixas para esconder seus seios), nos contava que naquele dia assinara a procuração para a sua advogada desenvolver os tramites legais para adequar seus documentos a sua identidade masculina. Partilhava sobre as reações do seu corpo à Hormonioterapia. Seu físico começara a se definir, constituir e revelar como um físico masculino. O maior passo virá com o tempo: a cirurgia de trangenitalização (compor um órgão sexual masculino onde há um órgão sexual feminino, ou vice e versa). A família o apóia, o que não é muito comum. Há muito que comemorar, a coragem e auto-estima aumentaram nele e em outros(as) que ali estavam.

Em seguida uma "ex-transexual", como ela se autodenomina após a sua cirurgia de trangenitalização, mostrou com orgulho sua carteira profissional com seu nome feminino (todos/as aplaudiram, muita festa), a partir desta data poderia procurar emprego sem passar por humilhações, resultado da luta de muitos anos.

Uma das psicólogas presente amamentava seu filho, que é a concreta esperança dessa festa continuar. São as futuras gerações que poderão legitimar a construção de uma sociedade verdadeiramente democrática, justa, igualitária e mais festiva.

Um antropólogo francês, David Lê Breton, escreveu um livro intitulado "Adeus ao corpo". Nele o conceituado estudioso, entre outras questões, desenvolve a idéia de que o corpo moderno é um simples acessório, suporte da pessoa, algo que pode e deve ser aprimorado, uma matéria prima que dilui a identidade pessoal. A idéia de que podemos melhorar a criação de Deus me assusta. Assusta-me mais ainda o processo que passam as(os) transexuais para adequar seus corpos a suas identidades. "Loucura" que exige despojamento. Mas não é um simples despojar-se. É uma Kenosis. Um desvaziar-se de conceitos e formas para enriquecer-se com inovações e algo muito maior do que se tinha ou concebia. É um processo de transformação do ser, exigente ao ponto de configurar a sacralidade do corpo. Ele é tão sagrado e importante que exige cuidados especiais e precisa estar perfeito. Uma perfeição que é ditada pelo sujeito que o tem. Mais do que um "adeus ao corpo", tenho percebido a sua importância, o seu pertencimento e empoderamento que os(as) transexuais possuem sobre ele, sobre si.

Os budistas Tibetanos Kadanpa têm um belo costume. Um ritual em que com muito carinho e cuidado são preparadas diversas ofertas (bebidas, doces, salgados, etc) que são colocadas nos simétricos altares. Demoram horas preparando o momento, o Lama Chopa. No final do ritual de oferta em gratidão às bênçãos, todos(as) se reúnem para festejar e saborear o que ofertaram ao Sobrenatural. O que é bom ao transcendente é bom para mim. Que bom seria se tudo o que tivéssemos para oferecer para o mundo fosse bom para nós também.

Nossos corpos talvez sejam o que temos de melhor, e se não o for, precisamos fazer algo para torná-lo. Evidentemente não defendo a padronização dos corpos. Clamo pelo respeito às necessidades das pessoas, a necessidade tão humana de tornar-se o que se é. A busca pela plenitude da felicidade também passa pela construção do corpo. Seremos todos cobrados por aquilo que deixamos de fazer para o nosso bem. A quem não falte coragem, que a entrega às transformações corporais seja celebrada com alegria e intenso respeito. Que a festa continue e que todos gozemos de dias mais alegres e corpos mais felizes.

 


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