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DIVINO

Por Tiago Duque
duque_tiago@hotmail.com]

Então, é quaresma. E o que você fez?

Segundo o antropólogo Carlos Rodrigues Brandão, a quaresma é um período litúrgico cristão de provação que atesta a fé dos fiéis, é a medida do devoto. Publicamente é revelador de quem ainda é fiel de fato. Pois, é tempo dos gestos comedidos dos corpos e dos sinas contemplativos das orações. Os santos, por exemplo, nas igrejas mais tradicionais, são cobertos com tecidos roxos, para que não vejam nossos pecados – dizia-me minha velha catequista. O roxo aqui não nos deve lembrar simplesmente a idéia de morte, mas está ligado nessa espiritualidade ao sentido da transformação.

A quaresma é composta por quarenta dias que antecedem a maior e mais importante festa do calendário cristão: a Páscoa! Ela inicia-se na quarta-feira de cinzas, depois de toda a folia do carnaval. No catolicismo, há nesse dia a missa de cinzas, que ocorre de forma muito solene, onde o sacerdote faz uma cruz com cinzas na fronte de cada fiel proferindo a seguinte frase: “Convertei-vos e credes no Evangelho”. As cinzas são retiradas dos ramos que, no ano anterior, foram usados na liturgia do Domingo de Ramos, onde os fiéis levam para a igreja ramos para fazer memória a maneira como o povo recebeu Jesus quando ele entrou em Jerusalém montado em um burrico emprestado.

Essas quatro dezenas de dias formam um tempo de revisão interna. De confissões e arrependimentos. Faz memória aos quarenta dias em que em Jesus ficou no deserto sendo tentado, como conta-nos alguns evangelistas, assim como à duração do dilúvio descrito em Gênesis, além de ao fato do Povo de Deus ter caminhado quarenta anos até encontrar a terra prometida, como está registrado no livro do Êxodo. Por isso, é preciso se propor a uma mudança, muitas vezes através de uma penitência ou um sacrifico. Algo que você goste e pode deixar de saborear, ver, fazer ou ouvir durante esse período para poder se concentrar melhorar naquilo que se propôs a mudar em você.

Minha avó dizia que, em seu tempo de criança, na quaresma não ligavam o rádio, não comiam carne vermelha, não falavam alto, não penteavam os cabelos e não dançavam. A crença popular dizia que, em quem dançasse na quaresma, nascia-se rabo!

Hoje, parece-me não haver mais espaço para esse tipo de crenças. As crianças sabem muito bem que rabo não nasce em gente e mais, muitas, nem ouvem rádio. Gostam mesmo é de televisão e computador.

Assim, a quaresma de hoje é muito diferente da do tempo de minha avó. Mas, será que os pecados mudaram?

Bem, confesso que para muitas pessoas alguns pecados deixaram de ser pecados, como o sexo antes do casamento, e outros simplesmente já se concretizaram como praticas altamente compreensíveis e aceitáveis, mesmo ainda sendo vistos como falhas graves, por exemplo, a infidelidade conjugal. Mas, há aqueles pecados novos, que surgiram nos últimos tempos.

Para as regras oficiais da Igreja Católica, um desses pecados novinhos e modernos, mas não menos polêmico do que os antigos, é o uso da camisinha. Mas, se é consenso de que até os santos pecaram, porque só Jesus é santo, vejo que temos alguma chance. Sendo assim, que tal assumirmos o nosso pecado de quase todo dia, nesse caso, do uso do preservativo, e nos propormos a uma penitência quaresmal que nos faça mudar para melhor? Em vez de nos arrependermos do uso do preservativo, vamos transar muito mais, vivendo a prática do sexo mais seguro. Vamos melhorar e fortalecer o cuidado com o nosso corpo e com o corpo do outro, que entre os cristãos são entendidos como templos do Espirito Santo e, por isso, merecedores de cuidado, proteção, atenção e respeito. A camisinha pode então ser um símbolo de conversão, de amor e de fé: acreditemos que é preciso nos prevenir de males que possam prejudicar aquilo que temos de mais sagrado: o nosso corpo!

Assim, neste sentido, oficialmente cheios de pecado, sempre com preservativos em mãos, mas nem um pouco arrependidos, poderemos estar mais seguros, alegres, protegidos, amados e saudáveis para a êxtase da festa da Páscoa, sentido último da quaresma. Querem preparação mais adequada do que esta para o dia da vitória da vida sobre a morte? Ou alguém ainda acredita que possa saborear, daqui algumas semanas, o seu delicioso ovo de páscoa, que já está à venda nos supermercados, sentado sobre um rabo?



Tiago Duque é teólogo leigo, socioólogo formado pela PUC-Campinas e Coordenador de Articulação com Movimentos Sociais do Identidade - Grupo de Ação pela cidadania LGTTB.

 



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