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DIVINO

Por Tiago Duque
duque_tiago@hotmail.com]

CDFs, escola e universidade

Gosto da escola. Sempre foi assim. Lembro-me da época do Colégio Técnico (fiz Edificações) em que era obrigado a acordar às 4 horas da madrugada para estudar, afinal o curso era em período integral e à noite sempre dormia cedo. Aprender sempre vale a pena. Foi nas salas de aulas que fiz grandes descobertas. Talvez por isso tornei-me professor. Adorava ver meus(minhas) alunos(as) com a mão levantada esperando o momento de perguntar ou criticar. Lecionei Educação Religiosa em um rígido colégio de freiras. A frase: "E como ninguém me disse isso antes?!" era o que mais me dava prazer em ouvir nas minhas aulas. Propiciar as descobertas é a missão de todo(a) educador(a). Durante meu curso de Bacharelado em Ciências Religiosas descobri coisas pouco agradáveis, mas nada que pudesse me deixar mal por muito tempo, afinal as boas descobertas também existiram.

Hoje, na Universidade as descobertas continuam. Uma delas foi no final do último semestre. Faço Ciências Sociais na PUC de Campinas. Tirei nota 1,0 (um)! Fiquei com média 5,0 (cinco) em "Sociologia no Brasil". Havia tirado 4 na primeira prova que valia 5. O sistema de avaliação que a professora utiliza é unicamente quantitativo, nada diversificado. Todos(as) sabem que o sistema quantitativo é o menos inteligente de todos. Evidentemente fui conversar com ela. Sua correção era totalmente subjetiva e os comentários (críticas) escritos na avaliação nada pedagógicos. Resolvi silenciar-me. A vida me ensinou que com intelectuais vaidosos não se brinca. Mas ela não se conteve com meu silêncio. Disse justificando-se: "Você fugiu do objetivo, isso não pode!". O "isso não pode!" é que me perturbou.

O que é permitido e o que não é permitido pensar? Talvez deveria ter feito essa pergunta a ela. Mas tem coisas que não valem a pena. Preferi naquele momento lidar com a minha baixa auto-estima, afinal sempre fui um CDF, a aumentar o orgulho dela criando confusão.

Descobri que nem tudo é permitido na Academia. O espaço para a liberdade de escrever o que se pensa é limitado pela autoridade de quem acredita saber mais. Não há quem sabe mais, mas quem sabe diferente. Na escola ocorre o mesmo. O "tudo pode, mas nem tudo me convém" de São Paulo Apóstolo é colocado como máxima, e a universidade acaba sendo tão retrógrada quanto à escola.

"A educação é como a paixão, só é boa quando acaba", disse Gilberto Dimenstein em uma palestra. Muitos sofrem por serem (ou pensarem) mais diferentes do que os outros (não há iguais), a educação ainda não é educada o suficiente para acolher a pluralidade, nem de pensamentos e nem de identidades. Mas não desejo o seu fim, assim como não quero deixar de me apaixonar. São as paixões pelas descobertas que me movem a aprender.

Durante uma discussão com amigos(as) sobre diversidade sexual na escola disseram-me que os adolescentes homossexuais, em especial os afeminados, estavam sempre entre os melhores alunos da sala (quando não da escola) porque era a forma como conseguiam ser respeitados e aceitos pelo grupo, ainda que momentaneamente. Independentemente de pensar em estereótipos, acredito que é preciso pensar que a educação precisa mover-se para o novo, para o diferente. Deveria ser como um percurso que a cada momento aponta-se para o desconhecido e conduze-nos com ternura às grandes descobertas. Nossos sofrimentos seriam bem menores e as nossas notas seriam apenas reflexos de um bom trabalho entre professores(as) e alunos(as). Distantes da autoridade agressiva abraçaríamos e seguiríamos de mãos dadas a uma escola e a uma universidade legitimamente criativa e acolhedora. Haveria espaços para todos e todas, com suas poucas semelhanças e muitas diferenças. A autoridade e a intolerância seriam expulsas do cotidiano da aprendizagem, educadores(as) educariam e aprendizes se superariam. Mas isso tudo precisa ir além do conhecimento, além da informação. Os sentidos precisam estar aguçados e o espírito desejoso de algo maior e mais intenso.

Certa vez corri a uma amiga estudante de pedagogia e entreguei-lhe muito animado o convite para o encontro entre Leonardo Boff, Rubem Alves e Luiz Carlos Lisboa. Dizia o tema: Abrindo as janelas do tempo e da espiritualidade. Ela olhou-me com cara de desprezo e repreensão . Exclamou: "Eles não vão falar de educação, isso não me interessa". Frustrei-me. Ela ainda não percebeu que educar é a maior espiritualidade. Talvez por isso ainda precisemos engolir notas 1,0 por pensarmos diferentes de nossos mestres e doutores (por não atingirmos suas expectativas) ou tornarmos CDFs para sermos aceitos e respeitados nas escolas. Portanto, espiritualize-se para educar e apaixone-se para aprender.



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