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| DIVINO Por Tiago Duque
Visite os mortos ou olhe para
as estrelas "Amai para entende-las. Tenho uma grande amiga chamada Marta. Ela vai casar. Seu noivo não é brasileiro. Nasceu e viveu no Peru. Veio para o Brasil para estudar Física. Conheceram-se pela internet. Namoro moderno. Recebi o convite oficial nessa noite das mãos do porteiro. Uma surpresa: "Para o Tiago e o Bruno". Era o que dizia as letras no bonito envelope. Sorri. Bruno é meu namorado. Ela reconheceu meu amor. Isso nem sempre acontece entre meus amigos e amigas. Fiquei feliz, surpreso. Junto do convite da cerimônia, um outro. O da tarde de chá (que irá substituir aqueles chás de cozinha tão chatos!). A viajem de casamento penso que já fizeram. Foram para o Peru em dezembro. Ela foi conhecer a família dele. Ficou muito surpresa na manhã de Natal quando foi avisada que iriam para o cemitério. O mais surpreendente é que levaram as crianças e os (as) mais jovens para lavar os túmulos. Lá no Peru só celebra o Natal, depois que se encontrar com os mortos. E mais, todos(as) têm fotos dos velórios de seus familiares. Minha avó não é peruana, mas desde muito pequeno, me levava para lavar os túmulos. Tenho uma ligação muito saudável com o cemitério, o que me facilita vivenciar as experiências de morte e amar muito a minha vida. Colocávamos num balde sabão e escovão, dentro de uma grande sacola algumas flores e folhagens colhidas no quintal, pano velho e um produto para ilustrar o azulejo dos túmulos. Subíamos no ônibus muito cedo e voltávamos para a casa no final da manhã. Trabalho cumprido, mortos visitados. Hoje não se tem mais tempo para os mortos, afinal até mesmo nós vivos ficamos esperando visitas de quem nunca aparece. Mas existe um dia em especial que o cemitério fica cheio de visitas. É o feriado de Finados. Há alguns anos passei esse feriado em Curitiba, na casa de algumas freiras amigas minha. Fomos para a missa em um belíssimo cemitério macro ecumênico. Havia pessoas de muitas religiões enterradas lá. Cada família celebrava o dia conforme suas práticas religiosas. Todos(as) cumprimentavam-se geralmente com sorrisos ou acenos. O que me encantou foi ver os(as) orientais deitados(as) ou sentados(as) com imensas toalhas de mesa e sobre elas alimentos e muito incenso. Comiam sobre o gramado no qual estavam enterrados os restos de seus(as) ancestrais. Em um outro local havia boa música. Gente muito afinada. Eram presbiterianos. Tenho pensado em morte nos últimos dias. Tudo começou com o Bruno declamando (às vezes ele canta Elis Regina, só para mim) durante o almoço de domingo o seguinte poema de Cassiano Ricardo: "Diante de coisa tão doída
Entristeço em lembrar de uma travesti me dizendo o que disse a ela outra travesti esfaqueada ao esperar por socorro em uma rua aqui da cidade: "Por favor, me ajude. Sou jovem demais para morrer". Ela tinha 16 anos, esperou 40 minutos pelo atendimento. Shaiane morreu e ainda não encontraram o assassino. Sabemos que não foi a única e nem a última, afinal todos têm acompanhado as notícias sobre o assassinato de Xandinha nas últimas semanas. Estaremos sempre jovens demais pra morrermos e por isso, pensar na morte deveria mobilizar em nós um sentimento de valorização da vida, e não somente da nossa vida, mas em especial das vidas mais vulneráveis. Segundo uma comunidade de indígenas
que vivem no Parque no Xingu (os/as Panará) as estrelas da noite
são os mortos do passado, as pequenas os homens, as mais brilhantes
as mulheres. Visite os mortos ou olhe para as estrelas. Quem sabe um dia,
menos saudosistas e em um segundo momento, nos reencontraremos todos(as)
cheios(as) de vida, para sempre. Poderemos então comer e ouvir
boa música, sem culpa por não ter feito o que nos cabe fazer
em defesa de toda experiência de vida, inclusive da nossa própria.
Afinal, como disse Jesus "Eu vim para que todos(as) tenham vida,
e vida em abundância" (Jo 10,10).
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