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| DIVINO Por Tiago Duque
A gruta é gay! Ela sempre esteve lá, há muitas gerações. Foi criada por um artista francês e é marco histórico e por isto, turístico, da cidade de Limeira/SP. É povoada por pombos e, em alguns meses do ano, podem ser vistas belas carpas no espelho d’água que a cerca. Noivas se posicionam diante dela ao longo do ano para serem fotografadas. Costume do povo simples do interior. As crianças, aos domingos, ao som da banda que de vez em quando ainda insiste em tocar, correm próximas dos bancos que a rodeiam. Claro que nessas ocasiões não faltam pipoca e algodão doce. Ter visitado minha cidade natal e ser levado à gruta por um afilhado gay (fui padrinho de Crisma do jovem amigo) até então não me revelava novidade alguma. A minha surpresa foi contemplar em que aquele lugar se transformou: um gueto. Lá estávamos nós, pouco mais de dez homossexuais. Ás sextas-feiras o número de freqüentadores é bem maior. Era um domingo de noite fria, ou melhor, gelada! Alguns espaços são universais no mundo gay: praças e parques, banheiros e cinemas, bares e boates. São lugares de “cassação”, isto é, de paquera ou sexo. Mas nunca imaginei que o gueto em Limeira fosse se constituir sobre o monumento símbolo da cidade, ao céu aberto, para todo mundo ver! Não dentro da gruta, mas sobre ela. Nas alturas! Sempre que cai a noite o grupo se reúne para namorar e conviver, sem se preocupar se estão “dando pinta” (mostrando que são gays) ou não. Um gueto meio na penumbra, é claro, como todo bom gueto, porém, cercado de prédios por todos os lados. Ao visitar o local mais uma vez, lembrei-me da bela encenação anual da “Paixão de Cristo” que se realiza naquela praça central. Um espetáculo digno de constar no “Mapa Cultual Paulista”, de público sempre garantido. A lembrança veio-me à mente porque nos aquecíamos com conhaque, exatamente no lugar onde Jesus “morre e ressuscita” todos os anos. Então, o lugar me remeteu a uma metáfora que justifica esse texto: jovens homossexuais dividem o mesmo espaço símbolo da morte e ressurreição de Cristo. Garantia, ao meu ver, de que Ele vive e continua causando transformações, porque estes jovens estão em seu “Kairós”, palavra grega que significa o tempo oportuno da graça divina. Afinal, logo sairão fortalecidos dali “para o que der e vier”. Esse é o papel essencial do gueto em nossas vidas, lugar para nos reconhecermos enquanto semelhantes e percebermos que ele é momentâneo e temporário, e isso se justifica pela infelicidade de muitos que o encaram apenas como fim e sentido máximo de suas existências. Por mais cômodo e seguro que seja o gueto, ele é apenas uma parte de nossas experiências que a cada momento nos solicitam muito mais do que ele pode nos oferecer. Aí nos cabe ressuscitarmos e irmos ao encontro da Luz. Movimento que já começou na vida de alguns desses jovens aos quais me refiro. Parte deles contou aos familiares e amigos mais próximos sobre a sua orientação sexual. Sinal de que a grande e pesada pedra que impedia a entrada do sepulcro já começou a ser removida. IMPORTANTE: Assim
que terminei de escrever esse texto voltei a Limeira/SP. Meus amigos já
não estavam mais lá. Os homossexuais mais velhos que freqüentam
os arredores da gruta há muitos anos, em especial o banheiro público,
pressionaram-nos a mudar de lugar, afinal o comportamento jovial da “galera”
estava tornando-os visíveis também. Quem quiser saber o
local onde eles estão se encontrando atualmente, por favor, entre
em contato comigo através do meu e-mail (duque_hua@hotmail.com).
Cabe registrar ainda que os policiais também deram sua contribuição
para que tudo continuasse acontecendo hipocritamente naquela praça.
Mesmo sendo informados pelos jovens munícipes da Lei Estadual nº
10.948/01 que protege LGTTBs de atos discriminatórios, alguns policiais
os ameaçaram e os coagiram a deixar de freqüentar o espaço.
E, com isso, a pesada pedra voltou a fechar a entrada do sepulcro; pelo
menos, naquele lugar.
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