Aids
 Busca
 Contato
 Dicionário
 Enquetes
 Especiais
 Galeria
 Notícias
 Orkut
 Podcast
 Publicidade
 Quem faz
 Eduardo Gregori
 GLBT XYZ
 César Machia
 Comedere
 Jovens
 Na Língua do Ju
 Mondo Moda
 Toca de Urso
 TransItália
 Xou do Gongo
 Divã
 Fashionista
 Mr. DJ
 Persona
 Salada Mix
 Cosmo On Line
 CR GLTTB
 Sites GLBT
 Agenda
 Bares
 Boates
 Grupos
 Saunas

Site melhor visualizado em 1024x768 pixels - Campinas,

 

DIVINO

Por Tiago Duque
duque_tiago@hotmail.com]

A gruta é gay!

Ela sempre esteve lá, há muitas gerações. Foi criada por um artista francês e é marco histórico e por isto, turístico, da cidade de Limeira/SP. É povoada por pombos e, em alguns meses do ano, podem ser vistas belas carpas no espelho d’água que a cerca. Noivas se posicionam diante dela ao longo do ano para serem fotografadas. Costume do povo simples do interior. As crianças, aos domingos, ao som da banda que de vez em quando ainda insiste em tocar, correm próximas dos bancos que a rodeiam. Claro que nessas ocasiões não faltam pipoca e algodão doce.

Ter visitado minha cidade natal e ser levado à gruta por um afilhado gay (fui padrinho de Crisma do jovem amigo) até então não me revelava novidade alguma. A minha surpresa foi contemplar em que aquele lugar se transformou: um gueto. Lá estávamos nós, pouco mais de dez homossexuais. Ás sextas-feiras o número de freqüentadores é bem maior. Era um domingo de noite fria, ou melhor, gelada!

Alguns espaços são universais no mundo gay: praças e parques, banheiros e cinemas, bares e boates. São lugares de “cassação”, isto é, de paquera ou sexo. Mas nunca imaginei que o gueto em Limeira fosse se constituir sobre o monumento símbolo da cidade, ao céu aberto, para todo mundo ver! Não dentro da gruta, mas sobre ela. Nas alturas!

Sempre que cai a noite o grupo se reúne para namorar e conviver, sem se preocupar se estão “dando pinta” (mostrando que são gays) ou não. Um gueto meio na penumbra, é claro, como todo bom gueto, porém, cercado de prédios por todos os lados.

Ao visitar o local mais uma vez, lembrei-me da bela encenação anual da “Paixão de Cristo” que se realiza naquela praça central. Um espetáculo digno de constar no “Mapa Cultual Paulista”, de público sempre garantido. A lembrança veio-me à mente porque nos aquecíamos com conhaque, exatamente no lugar onde Jesus “morre e ressuscita” todos os anos. Então, o lugar me remeteu a uma metáfora que justifica esse texto: jovens homossexuais dividem o mesmo espaço símbolo da morte e ressurreição de Cristo. Garantia, ao meu ver, de que Ele vive e continua causando transformações, porque estes jovens estão em seu “Kairós”, palavra grega que significa o tempo oportuno da graça divina. Afinal, logo sairão fortalecidos dali “para o que der e vier”.

Esse é o papel essencial do gueto em nossas vidas, lugar para nos reconhecermos enquanto semelhantes e percebermos que ele é momentâneo e temporário, e isso se justifica pela infelicidade de muitos que o encaram apenas como fim e sentido máximo de suas existências. Por mais cômodo e seguro que seja o gueto, ele é apenas uma parte de nossas experiências que a cada momento nos solicitam muito mais do que ele pode nos oferecer. Aí nos cabe ressuscitarmos e irmos ao encontro da Luz. Movimento que já começou na vida de alguns desses jovens aos quais me refiro. Parte deles contou aos familiares e amigos mais próximos sobre a sua orientação sexual. Sinal de que a grande e pesada pedra que impedia a entrada do sepulcro já começou a ser removida.

IMPORTANTE: Assim que terminei de escrever esse texto voltei a Limeira/SP. Meus amigos já não estavam mais lá. Os homossexuais mais velhos que freqüentam os arredores da gruta há muitos anos, em especial o banheiro público, pressionaram-nos a mudar de lugar, afinal o comportamento jovial da “galera” estava tornando-os visíveis também. Quem quiser saber o local onde eles estão se encontrando atualmente, por favor, entre em contato comigo através do meu e-mail (duque_hua@hotmail.com). Cabe registrar ainda que os policiais também deram sua contribuição para que tudo continuasse acontecendo hipocritamente naquela praça. Mesmo sendo informados pelos jovens munícipes da Lei Estadual nº 10.948/01 que protege LGTTBs de atos discriminatórios, alguns policiais os ameaçaram e os coagiram a deixar de freqüentar o espaço. E, com isso, a pesada pedra voltou a fechar a entrada do sepulcro; pelo menos, naquele lugar.



Tiago Duque - Teólogo Leigo e Sociólogo Formado pela PUC Campinas,
Coordenador de Articulação com Movimentos Sociais do Identidade - Identidade - Grupo de Ação pela cidadania LGTTB.

 



Voltar

 

 Espaço GLS - diversidade sexual no interior paulista - Copyright Espaço GLS 1999 - 2008 editor/webmaster Eduardo Gregori