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DIVINO

Por Tiago Duque
duque_tiago@hotmail.com]

A brincadeira que salva

Estive em uma aldeia indígena em dezembro de 2001. Brinquei com as crianças. Coisa muito simples. Uma roda, cantos, mãos dadas, passos firmes e ágeis. Muita poeira vermelha. O objetivo da brincadeira era fazer rir. Isso mesmo, não havia vencidos e nem vencedores. Formaram dois círculos, um de meninos abaixo dos 10 anos e outro com os homens e os adolescentes já iniciados na vida adulta. As mulheres e as meninas formavam um terceiro. Outros(as) indígenas(as) saíram do mato e se aproximaram do grupo. Emocionei-me em saber que faziam isso todo final de tarde e início de noite. Reuniam-se para brincar, só para rir. Bonita espiritualidade. Não compreendia o que as crianças cantavam, mas entrei na roda. O riso era a nossa única comunicação.

Em seguida fui levado para a "casa de oração". A única daquela região. No caminho uma indígena sorrindo me agradeceu por ter brincado com as crianças. A lua já nos iluminava o caminho. Abaixei-me para passar pela única entrada da grande construção. Guiado pelo jovem cacique fui apresentado ao velho pajé. Estava deitado em uma rede, enrugado por ter vivido mais de um centenário. Havia fumaça devido ao fogo baixo acesso dentro da grande construção que era feita de pouca madeira e muita palha. Na penumbra só uma imagem: o sorriso. Seminu o pajé dizia algo que eu não compreendia a um jovem do Conselho Indiginista Missionário (CIMI) que me acompanhava. Traduzindo: "CORAGEM!" Era o que o velho pajé nos dizia com um enorme e silencioso sorriso.

Certa vez ouvi dizer que em uma comunidade de monges ecumênicos de origem francesa, Taizé, em uma cidadezinha da Bahia chamada Belenzinho, todos os dias nos finais de tarde eles abrem o portão do mosteiro para que as crianças do bairro possam entrar e brincar. As crianças correm e sobem nas árvores livremente. Há pneus de carros e de bicicletas que com criatividade são usados pelas crianças em suas brincadeiras, alguns balanços e cordas. Simplicidade. Lugar paradisíaco. Muito riso.

Pergunto: Por que não rimos como eles(as)? Há muita diferença em nosso riso e no riso das crianças pobres brincando no quintal dos monges e dos(as) indígenas Kaiowás daquela aldeia que visitei em Dourados (Mato Grosso do Sul).

Falo desses risos debochados diante de piadas de mau gosto e de personagens estereotipados da TV. Quase ninguém escapa. O negro, o velho, a loira, o português, os políticos... e nós homossexuais. Rimos do que acreditamos ser oposto a nós, não por que nos identificamos, mas porque nos faz bem sentirmos superiores e privilegiados(as). Falso privilégio de não estar sendo ridicularizado(a). Defesa covarde diante da nossa própria alteridade. Propondo uma educação para o riso, e não quero com isso ser compreendido como aquele que quer conduzir e controlar o dom de sorrir.

Enquanto não nos vermos como diferentes e por isso tão especiais, continuaremos rindo de não sei que e buscando uma felicidade que a cada gargalhada se distancia de nós. O que nos falta é a verdadeira alegria. E isso nos faz medíocres e tristes, mesmo quando estamos rindo.

Então comece rindo de você mesmo. Isso faz um bem danado. Verás o que realmente tem de especial e isso abrirá teu olhar para a essência do(a) outro(a). Alegres de verdade, poderemos nos aceitar e nos enriquecermos com as nossas próprias bobagens. Porque não há nada mais humano do que o riso, por puro e ingênuo prazer. As gargalhadas puras e sinceras nos tornam leves e têm por isso, o poder de nos salvar. Experimente. Brinque sem a pretensão de vencer, de agredir a identidade do(a) outro(a) ou de se defender. Seja simples e natural. Afinal, temos muito que aprender com as crianças pobres e com os chamados "selvagens", porque em algum momento nos perdemos de nós e nos vimos frágeis pelo caminho.

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