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| DIVINO Por Tiago Duque
Beije-me Não existe nada mais sagrado do que um beijo. Muitos discordam pensando que é um gesto profano. Porém, uma das mais antigas imagens de Deus é o encontro do Criador com a sua criatura, e desse encontro, o hálito de vida, o sopro de amor, e porque não um beijo inesperado? Está lá no Gênesis. Livro sagrado lido pelos judeus e cristãos. É uma forma de compreender a vida humana. Uma das pinturas que mais me comovem é o quadro de Gustav Klimt intitulado O beijo. Nele um homem e uma mulher se beijam. Estão ajoelhados sobre flores. Uma postura orante. Os lábios dele tocam o rosto dela próximo aos seus lábios. É um beijo heterossexual. Não escandaliza. Inclusive o Leonardo Boff e a Rose Marie Muraro escolheram essa imagem para ilustrar seu livro que trata do encontro das diferenças (Feminino e Masculino). Já o beijo homossexual não vira capa de livro. Serve para dar ibope na TV, vender revistas e jornais. É protesto, por mais discreto que seja. É profético, abre caminho para um novo jeito de viver em sociedade. É perigoso, nunca se sabe a reação do público. Lembro-me dos meus tios-avós chegando em casa aos domingos e estendendo a mão para eu beijar, era ainda uma criança. Pedia-lhes a benção. Gesto bonito. Com o mesmo respeito que se beijam as guias dependuradas no pescoço de quem pratica a umbanda ou os colares no candomblé. Com a mesma seriedade que o sacerdote católico beija a estola (faixa de tecido que varia de cor de acordo com o tempo litúrgico) ao colocá-la sobre o ombro. Beijar é bom. É um gesto religioso. Penso que revela fragilidade, ousadia, afeto, carência, entrega, compaixão, amor, respeito, desejo, coragem, e muitas outras coisas. É muito triste perder a oportunidade de beijar alguém que se quer. Nos culpamos. Sofremos. Pior é ter o beijo negado. Sentir a dor da ausência do calor do beijo do(a) outro(a) nos faz amigos do tempo, esperançosos pelo dia que virá a ser diferente. Pacientes, mas menos acomodados (deveria ser assim). Assumir-se desejoso de um beijo nos faz humildes. Não existe nada mais sedutor do que um Beije-me. Por isso, faça como os amantes do livro sagrado Cântico dos Cânticos e exclame: Beije-me com os beijos de sua boca! (Ct 1, 2a). Beijar é um bom exercício espiritual. Engana-se quem acredita que beijar por beijar é o uso do corpo do(a) outro(a). Por mais superficial que possa ser o sentimento, o teu corpo invade voluntariamente o corpo do(a) outro(a). Troca-se calor e há um mergulho no diferente. O beijo, sempre nos faz carregar parte de algo que não é nosso. Ambos se misturam e jamais voltam a ser os(as) mesmos(as). Para isso, é preciso ser ousado(a). O Beijo entre homossexuais é o mais ousado entre todos os outros. É um gesto de conversão (transformação interna). Dignos de dar testemunho. É algo comprometedor. Nos expõe. É preciso ter muita coragem para se expor. Uma coragem espiritual como a da pecadora beijando os pés de Jesus. É colocar-se a disposição de julgamentos. Acima de tudo é divulgar o amor incondicional. É uma forma de oração. Seja persistente e beije muito, e quando tiver coragem o suficiente participe daqueles beijaços de parar Shopping Center, pois, a oração comunitária tem um valor especial aos olhos de Deus. Viva o ósculo santo!
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