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| DIVINO Por Tiago Duque
Sobre velhas e bichas “O que vemos não é o que vemos, senão o que somos”. Às vezes não conseguimos nos desligar de certos momentos que vivemos, por mais simples que possam parecer. Do ano que passou, uma das imagens que estão me perseguindo, é a de muitas bichas sobre um sol escaldante na cidade de Piracicaba (SP), em sua primeira Parada LGTTB. Elas dançavam, pulavam e se beijavam na boca (é claro!) ao som de muitos aplausos, principalmente de senhoras a beira da calçada. A alegria das velhinhas sob a sombra de suas sombrinhas no meio fio era contagiante como a das bichas no asfalto quente. O que se passava pela cabeça daquelas velhinhas? Penso que (acreditem!) a imagem das bichas se beijando era um sinal de beleza, que só poderia ser percebida pelos olhares das velhas, que já viram de tudo um pouco neste mundo de meu Deus. Quantas vezes elas não quiseram se sentir livres e desejantes como aquelas monas nas ruas? Pena que no tempo em que viveram as suas juventude não havia parada gay. Não estou desacreditando na heterossexualidade dessas senhoras, refiro-me a sentimentos de tempos tão diferentes dos nossos, onde toda a sexualidade (mesmo a das mulheres heterossexuais) era exposta, ou melhor, “escondida”, de forma tão diferente do que é em nosso tempo. As palmas eram muito mais de identificação com a liberdade e ousadia daquelas bichas do que de reconhecimento de qualquer bandeira política ou orientação sexual. As imagens de mulheres velhas me fazem bem há muito tempo. Dentre elas, destaco a de Sara, no Antigo Testamento (Gênesis, cap. 18). Acreditem que, em determinada situação, a companheira de Abraão riu de Deus? Foi durante a visita de três anjos, que muitos teólogos reconhecem como imagens de Deus, ao ouvir de um deles que ela iria ter um filho mesmo com a sua idade avançada. Ainda que o que foi anunciado tenha ocorrido, pensar que uma personagem bíblica teve o prazer de “rir por dentro” (como está escrito no texto de algumas traduções bíblicas) do seu Criador é muito especial. Não falo em descrença ou “sacrilégio” da velha Sara, mas de liberdade e descontração diante da imagem dos visitantes inesperados (Deus muitas vezes chega de surpresa). Outra velha que me emociona desde criança é a benzedeira onde minha avó me levava quando eu não passava muito bem. Depois da reza e da benção, a pequena velhinha de rosto e mãos enrugadas pelo tempo me abria um sorriso cheio de invejável ternura. Mas, voltando a “Pira”, o olhar das velhas de Piracicaba que foram ver as bichas da parada me fez reler uma crônica do Rubem Alves, intitulada “Os olhos e a idade”. Nela, ele escreveu: “Tudo depende dos olhos. ‘Não basta abris as janelas para ver os campos e o rio. Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores’, diz Alberto Caeiro. Todos os que passavam pelos montes de feno que Monet pintava viam os mesmos montes de feno mas não viam os mesmos montes de feno. Nenhum deles tinham olhos como os do pintor. A revelação não é a experiência de ver coisas que não se via antes. A, rua, o jardim, o muro continuam os mesmos. Nada foi acrescentado. E, no entanto, tudo está diferente. A rua dá para um outro mundo, o jardim acaba de nascer, o muro fatigado se cobre de signos. Tudo está banhado por uma luz antiqüíssima e ao mesmo tempo acabada de nascer. Nada mudou, mas mudaram-se os olhos. Portanto, tudo mudou. É a experiência do satori, a abertura do terceiro olho, a que se referem os pensadores zen.” Espero que em 2008 nossos olhos mudem e nosso olhar seja resignificado. Quem sabe, de olhos mais abertos e cheios de novidades, possamos avançar no mundo que tanto sonhamos para nós. Que a alegria das velhas das ruas de “Pira” se multiplique pelo mundo todo e nos encoraje a desejar nos expor, com ousadia e liberdade, em todos os dias do ano que já iniciou. Bom novo recomeço a todos!
Tiago Duque é Teólogo Leigo e Sociólogo formado pela PUC Campinas, mestrando em sociologia pela UFSCar e militante do Identidade – Grupo de Ação Pela Cidadania de Lésbicas, Gays, Travestis, Transexuais e Bissexuais
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