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DIVINO

Por Tiago Duque
duque_tiago@hotmail.com]

Bandeiras nas Janelas

Gosto de todas as cores. Este sentimento tenho há muito tempo. Lembro-me, por exemplo, do cheiro da caixa nova de lápis de cor que minha mãe comprava quando eu era pré-adolescente. Obrigatoriamente tinha que durar dois anos (duas séries escolares). Afinal, custava muito caro. Na caixa continha trinta e seis lápis de diferentes cores, colocados lado a lado de forma degradê, como no arco-íris. Por isso, toda vez que tomo em mãos a bandeira do arco-íris volto-me, por alguns instantes, à infância.

Sobre a origem da bandeira do movimento LGTTB, é bom sabermos que em 1978, um morador da cidade de São Francisco, na Califórnia, Gilbert Baker, em um ato criativo, executou artesanalmente a primeira bandeira do Arco-íris que foi usada pelo movimento homossexual, em plena Avenida Central. Onze anos depois, John Stout foi proibido pelo seu locatário de expor a bandeira colorida na janela de seu apartamento, na cidade de Los Angeles. A proibição foi deslegitimada pelas autoridades locais e, depois desse episódio, todo o mundo reconheceu a bandeira do Arco-íris como símbolo da diversidade sexual.

Lembro-me da emoção de alguns dos meus amigos militantes ao ver a bandeira do Arco-íris, irradiante com todas as suas seis cores, sobre o altar da histórica Igreja de São Benedito, no centro da cidade de Campinas. A missa era do sétimo dia após o assassinato de uma travesti adolescente, no ano de 2004. O padre de cabelos brancos acolheu a todos e aceitou utilizar a bandeira como símbolo de oração daquela comunidade. Então, no altar, a imagem de Nossa Senhora das Graças ladeou-se de cores vivas e alegres.

Algo parecido aconteceu no último dia 30 de outubro, na cidade de Hortolândia, região metropolitana de Campinas. Em plena praça pública, aos olhos de clérigos e do Arcebispo de Campinas, Dom Bruno Gamberini, a bandeira colorida entrou liturgicamente, acompanhando o pão e o vinho até o altar improvisado. Dos milhares de jovens presentes na celebração, em comemoração ao Dia Nacional da Juventude, apenas algumas dezenas se escandalizaram com tal ousadia.

Outro momento inesquecível foi presenciar as cores preto e branco das listras da bandeira do Estado de São Paulo se misturarem com as inúmeras listras coloridas e brilhantes do arco-íris, na Assembléia Legislativa, em 21 de junho de 2004, durante a histórica Sessão Solene em Homenagem ao Dia do Orgulho GLBTT, preparada pela Frente Parlamentar Estadual pela Livre Expressão Sexual, composta por 13 deputados. Foi a primeira vez na história política do país que recebemos tal homenagem.

Por isso, como o Natal vem aí, quero propor um ato subversivo: que todos os LGTTBs (Lésbicas, Gays, Travestis, Transexuais e Bissexuais) debrucem sobre suas janelas as cores do arco-íris. Longe do valor capitalista do sapatinho na janela, que o menino Deus sinta-se motivado a nascer em seu lar ao deparar-se com janela tão festiva. Àqueles homossexuais que ainda estão “dentro do armário” sugiro que coloquem lindas azaléias coloridas sobre o peitoril da janela, mas que ninguém se deixe intimidar pela vergonha ou medo. Que todos possamos esperar a festividade do dia 25 de dezembro coloridos e felizes. Quem sabe não sentiremos a mesma alegria que sentiram os animais e os responsáveis pela construção da Arca de Noé? Afinal, segundo os registros bíblicos, foi esse o motivo pelo qual Deus pintou coloridamente, em forma de arcos, o céu após o dilúvio. Tal obra divina é reconhecida no Antigo Testamento como compromisso de fidelidade com os seus filhos e filhas, sinal de alegria e esperança da sua infinita justiça e bondade.

Que as cores nos ensinem a acolher Aquele que vem, tornando-nos hóspedes do menino Deus e anfitriões de um mundo novo, mais natalino e infantil. Que a fragilidade e suavidade do arco-íris nos pigmente e nos faça revelar a nossa própria finitude, para que possamos compreender que um miserável e faminto recém-nascido nazareno, transformou o mundo e inúmeros corações. Que o mistério divino seja como prisma em sua vida, que reflita de todas as cores e tons as bênçãos que te cabem. Um feliz, santo e colorido Natal!




Tiago Duque - Bacharel em Ciências Religiosas, estudante de Ciências Sociais da PUC-Campinas e Coordenador de Articulação com Movimentos Sociais do Identidade - Grupo de Ação pela cidadania LGTTB.

 



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