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DIVINO

Por Tiago Duque
duque_tiago@hotmail.com]

Sob o foco das luzes e à sombra das cortinas

A todo o momento estamos representando. Ainda que não nos reconhecemos como atores, sempre estamos apropriando de papéis sociais que nos permitem conviver em comunidade. Isso não significa que estamos blefando ou deixando de sermos verdadeiros. É apenas uma possibilidade de analisar e manter as nossas relações sociais.

Estive acompanhado alguns amigos em uma intervenção junto a comunidade de michês que trabalham aqui no centro de Campinas. São poucos e ainda bastantes resistentes à nossa presença, afinal iniciamos o trabalho de prevenção a DSTs e AIDS há pouco tempo. Surpreendi-me com um deles que estava acompanhado da namorada. Enquanto ele faz os programas, ela aguarda o seu retorno na calçada. O jovem a que me refiro desenvolve um papel homossexual, quando na verdade é heterossexual. Isso parece ser comum entre os michês. Papéis e identidades não estão ligados de forma simples e direta. A arte de interpretar é complexa e sempre carrega em si partes ainda não reveladas.

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Por isso, adoro teatro. É mágica a percepção de que tudo pode acontecer enquanto se espera as cortinas (quando existem) se abrirem. O palco é um espaço sagrado, lugar onde o humano desmascara-se. Ambiente descortinador de nossos medos, fraquezas, esperanças, vitórias, dramas e comédias. É um local de encontros e desencontros que refletem a vida hora de forma caricata e absurdamente real e hora de forma sutil e surpreendentemente absurda e irreal.

Estive em São Paulo no final de semana e fui ao teatro a convite de um amigo ator. Pessoa muito especial, irmão camarada, corajoso em suas empreitadas. A peça apresentava o cotidiano dos encarcerados na década de setenta no Carandiru, inferno já conhecido de todos. O cenário era de um lugar onde "o mais forte é o que chora menos". Os personagens viviam relações de poder e expressões de afetuosidade em meio a muita violência. Isso é que me chamou a atenção. Os papéis daqueles atores detentos confundiam a platéia em meio a suas performances homoeróticas e seus discursos agressivos e machistas. A discussão não é se são personagens homossexuais ou não. O desafio é compreender o desejo que sentiam pelo detento mais jovem e aparentemente ingênuo que acabara de ser preso. Mais do que a beleza do rapaz, a sua fragilidade seduzia os personagens. A interpretação em meio à movimentação das luzes no palco me comoveu quando aqueles corpos nus e tatuados acariciaram-se em meio a grades de ????ferro imaginárias. Ainda que estejamos enjaulados, sem dignidade, sendo violentados, com medo e muito inseguros do que poderá acontecer em nossas vidas, há ímpeto o suficiente para expressarmos afeto e carinho. É esse papel que vejo além do palco e dos personagens da peça "Rua 10" que fui assistir no domingo à noite no "Teatro Studio 184" em frete a praça Roosevelt no Centro de São Paulo (http://rua10.blig.ig.com.br/).

Quantas vezes os papéis que desempenhamos aparentemente não combinam com a realidade em que vivemos? Acredito que esses papéis são o que realmente somos, porque a realidade às vezes é insuficiente para nós. É uma forma de protesto cumprirmos algo que não condiz com a lógica racional na qual estamos inseridos. Para isso é preciso ter na essência a espiritualidade do ator, aquele que "finge a dor que deveras sente", que se expõe em detrimento de uma paixão pelo palco e seus desafios, que se entrega sem resistência a um público quase sempre fiel e crítico. O ator nos ensina sempre a acreditar no impossível, por que afinal, estamos todos lá, sob o mesmo foco das luzes e às mesmas sombras das cortinas.

Ir ao teatro tem sido uma reflexão declarada a respeito da vida, o que se vive aqui se repete lá. Qual tem sido o seu papel? Algo que te dá originalidade ainda que esteja apenas como figurante ou tens o papel principal, mas não é capaz de convencer o público e nem a você mesmo? ???? Acredite e experimente, o bom ator é aquele que é seguro na capacidade de enfrentar a insegurança da aceitação da platéia e se coloca a disposição das orientações de um diretor competente. E isso tudo parece que não tem relação nenhuma com a nossa vida fora do palco. Engano. Atue melhor e descubra-se capaz de abandonar as máscaras e posicionar-se como realmente é. Vá ao teatro e aprenda a ser feliz. Viva a autenticidade.

 


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