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| DIVINO Por Tiago Duque
O dia em que a Igreja ficou bonita No mês passado fui ao “Grito dos Excluídos”, como já é costume meu e de alguns militantes do Grupo Identidade, aqui de Campinas. Lá, misturamos a nossa bandeira do arco-íris com muitas outras, e, em se tratando de tempos de eleições, este evento tornou-se ainda mais colorido e importante. As que me cativaram foram as bandeiras lilases, do movimento de mulheres da periferia, e as bandeiras vermelhas, dos partidos ditos socialistas. Esta marcha por uma das principais avenidas da cidade no final do desfile que faz memorial a “independência” do Brasil, é um evento político e religioso. Ela é uma manifestação popular carregada de simbolismo, que acontece em muitas cidades do Brasil e da América Latina; defende a soberania nacional e busca reivindicar direitos fundamentais. É composta por diferentes pessoas, grupos, instituições, partidos políticos, ONGs, movimentos sociais e comunidades religiosas. No dia 07 de setembro de 1995, a partir da mobilização das pastorais sociais da Igreja Católica, foi realizado o primeiro “Grito dos Excluídos”. Neste dia a Igreja ficou bonita e a cada novo dia 07 de setembro ela fica novamente bela. Isso não significa que ela já não era bela antes, mas confesso que a cada nova ação criativa, popular, democrática, festiva, provocativa, transformadora e política deste tipo a Igreja se faz bela. Há outros momentos em que ela fica feia, muito feia, mas não é sobre isso que irei me atentar neste texto. O primeiro “Grito” que participei foi em Limeira/SP, há quase dez anos. Eu levei vários adolescentes da minha comunidade religiosa até o local marcado para nos encontrarmos com outras comunidades e grupos sociais. Assim que chegamos, soubemos que os policiais haviam acabado de prender um vereador do PT, um padre e os líderes do MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra). Nada vai fazer com que eu me esqueça do rosto daquelas mulheres e crianças perdidas, sem saber o que fazer e para onde ir. Depois de alguns minutos, decidimos que “gritaríamos” mesmo com toda aquela repressão. Fomos, então, até o ponto onde o desfile de 07 de setembro iniciava. Mas, não nos deixaram desfilar. Colocaram os policiais militares montados em seus cavalos para desfilar em nossa frente, finalizando o desfile comemorativo. Porém, resolvemos caminhar pela rua interditada atrás dos cavalos em direção ao palanque. Havia um rastro de fezes dos animais que não tinha como desviarmos. As mulheres e as crianças do MST levavam descalças sobre suas cabeças pequenas casas coloridas de papelão pintado à mão, símbolo da necessidade e do sonho daquele povo. As poucas pessoas que resistiam ao sol do meio dia, sobre as calçadas, aplaudiam-nos. Mas, as autoridades municipais não estavam mais lá. Existem muitos políticos que se afastam do povo na maior parte do tempo, mas volta a caminhar ao seu lado com sorrisos amarelos no período eleitoral. São poucos aqueles que se identificam com o pobre, no discurso, na estética e na própria história sofrida da vida. Por isso, aqueles que saíram do meio dos pobres e continuamente se volta a eles, precisam ser valorizados. Já, sobre o que eu, juntamente com uma multidão, vivemos há poucas semanas na Avenida Francisco Glicéreo, o que ainda ressoa em minha memória são os gritos de ordem do movimento LGTTB de Campinas: “É legal, ser homossexual!”, “Sexo anal, derruba o capital!”, “Ão, ão, ão, eu amo sapatão!” Ado, ado, ado, a gente é viado!”, “Contra a Opus Dei, todo mundo vira gay!” e “Contra a homofobia, a nossa luta é todo dia!”. No último dia
07 de setembro em Campinas/SP, além dos “gritos” citados
acima, também se ouviu o povo cantar: “Clama, canta, dança,
grita, vai povo de Deus. Vem contar a tua história, feita de tanta
memória, que esta festa faz viver, viver, povo de Deus”,
“Vem, vamos embora, que esperar não é saber. Quem
sabe faz a hora não espera acontecer” e “Viver e não
ter a vergonha de se feliz. Cantar, e cantar a beleza de ser um eterno
aprendiz. (ah, meu Deus) Eu sei que a vida podia ser bem melhor e será,
mas isso não me impede que eu repita, é bonita, é
bonita, é bonita!”. Neste sentido, mesmo
com nosso histórico frágil de corrupção institucionalizada,
espero que com o meu e o seu voto, assim como o que ocorre nos dias em
que a Igreja tem ficado bonita, eu, você e uma multidão de
militantes, possamos contribuir para a continuidade de iniciativas desafiadoras
que têm buscado transformar pouco a pouco este país em um
belo, democrático e justo lugar para se viver, sem excluídos
e com gritos só de alegria!
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