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DIVINO

Por Tiago Duque
duque_tiago@hotmail.com

Adeus Windsor

Ninguém imaginava o que podia acontecer lá dentro observando-o do lado de fora. As imagens de mulheres nuas escondiam um ambiente muito mais homossexual do que heterossexual. Os letreiros na fachada alertavam: “Filmes para o público adulto. Proibida a entrada de menores de 18 anos”.

Somente quem teve a oportunidade de conhecê-lo nas décadas de 70 e 80 é que pode descrever com sentimentos burgueses o quanto ele foi “chic”. Tapetes vermelhos e uma enorme tela branca. De lá para cá muitas coisas mudaram. Para os mais moralistas é um histórico decadente, pois, nos últimos anos tornou-se um espaço de sexo explícito entre os freqüentadores e um ambiente tomado por profissionais do sexo, principalmente travestis.

Por uma questão capitalista, contraditória e até pitoresca (para não dizer trágica) o aluguel do Windsor, que estava fielmente em dia, caía na conta da Santa Casa de Misericórdia de Campinas, proprietária do imóvel. Sobre isso, se fazermos fluir nossa imaginação e nos desprendermos de nossos preconceitos, até podemos reconhecer que tal instituição fazia benfeitoria pelo fato de aceitar que assim o lugar fosse usado, afinal, era um espaço onde todos entravam tensos e preocupados, mas saíam aliviados e cheios de prazeres. E isso, penso que é muito bom. Não é a toa que sempre tinha público e bilheteria garantida!

A última vez que visitei o Windsor foi a trabalho. Estive colando cartazes da Parada do Orgulho LGTTB no banheiro, além de um outro com informações sobre uma pesquisa na área da saúde. O que contraria a fala do secretário de Urbanismo Hélio Jarreta, divulgada em um dos jornais da cidade, de que no local não havia banheiro.

O que me justifica escrever este texto é a minha indignação frente a postura da Prefeitura Municipal em fechar este importante espaço de sociabilidade campineira. Segundo o secretário interino de Cultura, Francisco de Lagos, o prefeito decidiu tomar essas medidas administrativas e jurídicas porque, além de não cumprir a lei, o uso do local não estava de acordo com o projeto de revitalização do Centro, uma das prioridades da atual administração do PDT aqui em Campinas. Estas informações foram divulgadas no referido jornal já citado anteriormente.

Não vou defender que os empresários devam deixar de pagar impostos nem deixar de cumprir as exigências dos sanitaristas, como foi divulgado pela imprensa como sendo a realidade dos responsáveis do Cine Windsor. Mas, o que é inaceitável é o posicionamento do poder público em afirmar que, também se justifica lacrar aquelas portas devido o uso do cinema não estar de acordo com o projeto de “revitalização” do centro de nossa cidade. Ora, mas “revitalizar” o que? Todos sabem que no Windsor sempre pulsou vida. Mas, talvez seja exatamente este o problema: a que se presta o projeto de “revitalização” do centro? Quais vidas precisam ser colocadas ainda mais à margem e quais precisam ser expostas nas ruas e nos espaços de sociabilidade ditos “revitalizados”?

Este sentimento em defesa do “cinemão” (como era carinhosamente chamado pelos homossexuais e travestis), esta vontade de querer ir lá para a porta do Windsor protestar contra o seu fechamento, nem parece nobre, eu sei. Mas, penso que se isso ocorresse, teríamos um bom motivo para garantir a visibilidade das vidas de muitos excluídos e oprimidos por suas práticas sexuais. Esta visibilidade poderia favorecer a intervenção para a diminuição da vulnerabilidade dos freqüentadores daquele espaço, por exemplo, em relação às DSTs/Aids.

Por isso, questiono: Aonde irão se encontrar aqueles jovens de cidades próximas de Campinas que viam no escurinho deste cinema uma oportunidade de sexo e encontros homoeróticos longe da repressão de comunidades menores do que a nossa? Aonde as profissionais do sexo travestis irão se prostituir sem se sentirem ameaçadas por policiais ou transfóbicos? Para onde irão os velhinhos aposentados em busca de aventuras sexuais? Como farão aqueles homossexuais casados que viam diante daquela tela uma oportunidade de prazer com algum desconhecido, mas que o fazia mais feliz e aceito no mundo? Em que lugar os assalariados ou desempregados que entravam nas tardes e noites promocionais no Windsor vão se encontrar e poder se relacionar com tamanha liberdade? Alguém acredita que a cidade de Campinas ficou menos “promiscua” e “pecadora” pelo fato do “cinemão” ter deixado de existir? O número de homossexuais assumidos irá aumentar pela ausência do escurinho deste cinema? As travestis deixarão de buscar sua sobrevivência na prostituição, única alternativa que nossa sociedade as oferecem?

Entendo que, por melhor que seja a reforma e a resignificação daquele espaço clássico de sociabilizarão de Homens que fazem Sexo com Homens (HSH), esta população e suas praticas não vai mais “estar de acordo” com ele, conforme já foi alertado pelo pode público.

Para aqueles que têm sentimentos diversos dos meus, quero citar um parágrafo de um texto coletivo publicado em uma revista, a OCAS, produzida e vendia por moradores de rua de São Paulo como forma de geração de renda: “Os sentimentos são coisas que a gente sente no coração, na mente, no estômago e nas pernas. Pode ser mais fraco ou mais forte. Ou tão forte que a gente até esquece do corpo e da vida.”

Para muitos que defendem a moral e os bons costumes legitimando hipocrisias, “revitalizar” não é necessariamente fazer “reviver”, pelo contrário, é esquecer-se de muitos corpos e de muitas vidas, é fazer adoecer e morrer. Eu rezo para que todos estes sentimentos, moralistas ou não, possam nos levar a sermos menos excludentes e mais cheios de vida, seja lá qual for esta vida. E que possamos, a partir disto, deixar que os sentimentos tomem conta desta cidade, mesmo aqueles tidos como imorais, não nobres, menos valiosos, mas, que de fato também revelam quem somos nós.




Tiago Duque é teólogo leigo, socioólogo formado pela PUC-Campinas e Coordenador de Articulação com Movimentos Sociais do Identidade - Grupo de Ação pela cidadania LGTTB.

 



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