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DIVINO

Por Tiago Duque
duque_tiago@hotmail.com

Papai Noel de Plástico

O Natal é um memorial festivo. Pelo menos deveria ser assim para todas as pessoas, em especial àquelas que se dizem cristãs. Nesta época tudo em nossa volta parece se esforçar para nos fazer feliz, mas nem tudo é motivo de graça.

Na minha infância (já fiz 30 anos!) o Papai Noel não era de plástico. Nem de pano e, muito menos, de borracha. Era gente de verdade. Não vou ser saudosista, mas bem que as novas tecnologias não precisavam substituir as pessoas queridas nesta época.

Aqui em Campinas a prefeitura ecologicamente aderiu ao politicamente correto e, já que temos que economizar e preservar, não foram medidos esforços para isso. Para onde se olha no centro (será que a periferia também foi decorada pelo poder público?), encontramos as garrafas PET formando as clássicas imagens natalinas.

No calor do meio dia lá está ele, o boneco de neve de garrafas pintadas de branco tentando nos convencer que está muito frio. As bolas, também feitas de dezenas de garrafas plásticas, enfeitam os postes das ruas mais movimentadas, aquelas menos freqüentadas continuam na penumbra. As praças, Ah! as praças... estas dão um show de iluminação, em meio as garrafas, as eternas luzinhas cobrem o coqueiro, que ganha destaque somente nesta época do ano. Parece que nós só lembramos que o país é tropical quando os coqueiros se cobrem de neve falsa.

O que sinto andando pelas ruas do centro é que parte da cidade nos quer lembrar de algo, ou nos fazer comprar algo. Não importa o que seja, mas um presentinho não faz mal a ninguém. Até Jesus menino ganhou. E, além disso, justifica os empregos temporários tão valorizados de fins de anos. Depois, tudo volta ao normal, quase ninguém se preocupa com o desemprego. Você já imaginou se aqueles amigos terríveis que nos presenteiam (ou que somos obrigados a presentear caso tiramos seus nomes naqueles infelizes papeizinhos do amigo secreto) se convertessem em pessoas solidárias e maravilhosas? Aí sim presentear valeria a pena!

Mas, muita coisa dessa época fica para o ano todo, é verdade. Este ano mesmo eu recebi em junho várias imagens de Papai Noel. Ele em pé, de bruços, rindo, acenando, com o saco cheio, de quatro e até na banheira. A imagem da banheira era a melhor. Ele estava só de toquinha, e todo molhadinho. Adorei receber as imagens pelo correio eletrônico. Era jovem e moreno, não tinha nada a ver com aquele velhinho branco e com barbas longas. Barriga, nem pensar! Era um verdadeiro tanquinho depilado. Repassei para todos os meus amigos, nenhum estranhou meu “Feliz Natal!” em junho. Alguns, inclusive, me agradeceram.

Você sabia que o Papai Noel é o único santo que é bem vindo no “sex shop”? Têm para todos os gostos, os gorros são para meninas e meninos, o saquinho de surpresas pode trazer coisas incríveis e muito prazerosas. Porque será que a Igreja não se rebela contra as vitrines dos “sex shops” que expõe o santo em prol do prazer sexual dos fiéis, digo, clientes? A Igreja briga com escola de samba que resolve expor imagens sacras na avenida e com estilistas modernos que estampam a imagem de cristo em sungas, mas não está nem aí para o mercado do sexo que explora o bom velhinho... Talvez possa ser o espírito natalino, que torna todo mundo aparentemente mais tolerante.

Deixando o Santa Claus de lado e os produtos dos “sex shops” para outra ocasião, vale lembrar que dizem por aí que a solidão dessa época atinge muitos LGTTBs (Lésbicas, Gays, Travestis, Transexuais e Bissexuais). Aquelas pessoas que saíram de casa (ou foram expulsas) quando deixaram o armário têm muita dificuldade de re-estabelecer os laços. Então, a festa oficial da família cristã (e até de muitas “pagãs”) acontece sempre incompleta. Neste caso os Papais Noéis de plástico fazem todo o sentido, porque refletem um acolhedor aceno de uma festa feliz que ficou imóvel e simbolicamente paralisada no passado de muitas pessoas.

Por isso, desejo a todos e todas que terão um Natal de plástico, um santo memorial! Que as lembranças sejam alimentos de conquistas futuras e motivo de alegria, porque o que tem acontecido, vale muito a pena. Entre as luzes das pequenas velas da ceia de um só dia do ano e o escuro aparentemente confortável do armário, eu fico com a verdade e a alegria do nascimento de todos os dias.

Nota: O Papai Noel é inspirado em São Nicolau de Mira (atual Região da Turquia), do século IV. Nicolau costumava ajudar, anonimamente, quem estivesse em dificuldades financeiras. Colocava o saco com moedas de ouro a ser ofertado na chaminé das casas. Foi declarado santo pela Igreja Católica depois que muitos milagres lhe foram atribuídos. Alguns afirmam que a sua transformação em símbolo natalino aconteceu na Alemanha e de lá espalhou para o mundo. Outros apontam que foi nos EUA que a imagem do Santo vinculou-se com a do bom velhinho natalino.

Tiago Duque é Teólogo Leigo e Sociólogo formado pela PUC Campinas, mestrando em sociologia pela UFSCar e militante do Identidade – Grupo de Ação Pela Cidadania de Lésbicas, Gays, Travestis, Transexuais e Bissexuais

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