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DIVINO

Por Tiago Duque
duque_tiago@hotmail.com]

A Oração da Diversidade

Existem muitas maneiras de orar. Falar nem sempre é preciso, mas mesmo em silêncio a oração implica em diálogo. O imanente em comunicação com o Transcendente e o Transcendente em comunicação com o imanente. Não precisa ser nada apocalíptico, do ponto de vista dos grandes sinais, bastam leves gestos tênues e verdadeiros. A oração parece-me fundamental em nosso mundo moderno. Porém, cuidado. Ela deve existir para nos tornar mais mundanos e realistas. Mundanos no sentido da inserção no mundo, (lugar sempre da ação do Criador), do comprometimento arriscado com o momento e local histórico que se vive, da paixão pelo mundo que já existe em parte, mas que virá a existir plenamente se o bem continuar prevalecendo. Realista no sentido de assumir sua condição, seja ela qual for, e de trabalhar para que a utopia se construa quotidianamente, ainda que não possamos contemplá-la na intensidade que desejamos.

Imagino que se eu não fosse tão mundano não seria capaz de participar de uma situação inesquecível para muitos amigos e amigas, militantes políticos em sua maioria, aqui de Campinas/SP. O ocorrido se deu na tarde do dia 12 de junho de 2005 na III Conferência LGTTB da cidade, durante atividade do "III Mês da Diversidade Sexual de Campinas/SP". A mesa era intitulada "Movimentos Sociais" e eu tinha a incumbência mundana de coordenar tal atividade. Digo mundana porque se tratava de pessoas extremamente enamoradas do mundo e de seus desafios terrenos. Afinal, fazer política não é algo para anjos e deuses. A política, em seu mais amplo e sagrado sentido, é uma atividade específica do humano inserido no mundo, jamais fora dele.

Havia, então na mesa, um jovem estudante universitário marxista com seu discurso ousado, artista do Hip Hop trazendo suas denúncias musicalizadas; uma mulher negra feminista com sua coragem e força, outra mulher da periferia com seus testemunhos coletados no círculo da prostituição; um ativista portador do vírus HIV cheio de esperança em sua luta por políticas públicas voltadas à saúde; uma jovem de instituição de ensino católica defendendo a diversidade sexual e, por fim um jornalista militante, deficiente auditivo, buscando ser reconhecido enquanto sexuado e capaz de muitas coisas como qualquer outra pessoa. Enfim, uma Babilônia (no sentido da mistura das diferenças) santa!

Essa experiência me fez pensar na dimensão mais perigosa da oração, a da visibilidade. Ainda que possamos, segundo orientações bíblicas, nos ajoelhar na intimidade do nosso quarto e orar no recolhimento individual, entendo que também é preciso profetizar o que clama e emana da nossa história pessoal, sempre conectada ao contexto coletivo daqueles com quem nos identificamos. Por isso tenho acreditado na visibilidade social e política como uma forma de oração. Inclusive porque promove conversões e grandes transformações para o bem de muitas pessoas.

Cabe deixar claro que o sentimento e entendimento dessa situação é constituído por impressões bastantes pessoais. Não tenho a pretensão de impor essas minhas percepções àqueles que dividiram tal momento comigo. Mas quero registrar que não vejo a hora de nos encontrarmos novamente, pois hoje vivo o desejo semelhante àquele dos apóstolos aguardando a ressurreição. E em se tratando da temática da oração, termino com um pequena provocação, digo, oração reveladora de um dos desejos de Jesus, o Cristo: "Para que todos sejam um". Amém!


Tiago Duque - Bacharel em Ciências Religiosas, estudante de Ciências Sociais da PUC-Campinas e Coordenador de Articulação com Movimentos Sociais do Identidade - Grupo de Ação pela cidadania LGTTB.

 



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