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| DIVINO Por Tiago Duque
A Pedagogia das Ausências Tenho muitos amigos heterossexuais. Alguns já se casaram e criam seus filhos. Outros estudam e estão noivos. Seguem um padrão cultural e são bem felizes. Outros por sua vez deixaram as expectativas de familiares e amigos de lado e resolveram contestar o que a sociedade havia sonhado para eles, por isso, sofrem as conseqüências. Mas os meus amigos que estão nesses dois grupos possuem um referencial pré-estabelecido no qual deveriam se encaixar e viver em comunidade para o bem de todos ou para os mais ousados, contestá-lo. Eu não tenho qualquer referencial, não porque não queira, mas porque ninguém pensou em criar padrões familiares e/ou pessoais para os gays. O que revela que os gays nunca foram incluídos em nossa sociedade. Viver sem padrão tem sido muito difícil. Afinal não há o que seguir, e o pior, nem o que contestar. Tudo é novo e então os erros são freqüentes. Então, o desafio é improvisar para ver se funciona, mas nem sempre somos preparados para tanta criatividade. Infelizmente, o que existe são estereótipos, e isso limita toda a riqueza e a diversidade das potencialidades humanas. Há o gay machista e preconceituoso, o intelectual e bem sucedido, o "sarado" ou "afetado", o infeliz e até o pai de família. Mas não há nenhum padrão definido ou em crise, não há caminho algum para seguir e garantir aceitação e respeito. Mesmo os mais discretos sofrem significativa violência simbólica no ambiente de trabalho ou nas reuniões de família. Parece-me que não há saída a não ser continuar a dar valor às emoções e buscar a auto-estima necessária para criar os caminhos que são tão únicos na história de vida de cada um de nós. Para isso, é importante saber que quando se caminha sem direção definida, por lugares que nunca ninguém caminhou antes, tudo parece perigoso e arriscado. Pedagogicamente, as ausências podem servir de referenciais e nos tornar sábios. Onde não há alimentos, planta-se. Onde não há água, cava-se. Onde não há dinheiro, cria-se. Onde não há amizades, busca-se. Onde não há amor, cativa-se. Onde não há paz, dialoga-se. Onde não há respeito, compromete-se. Onde não há tranqüilidade, acalanta-se. Onde não há silêncio, sussurra-se. Onde não há confiança, dedica-se. Onde não há perspectiva, planeja-se. É na ausência de referenciais que tenho percebido o caminho que estou percorrendo. Isso me torna muito vulnerável a longas pausas no caminhar, mas me faz nesse sentido mais conscientes dos passos. Lembro-me do desabafo da Mafalda, aquela personagem tão inteligente das tirinhas do Kino: " - Justo a mim me coube ser eu". A ausência de outros "eus" iguais a mim tem em deixado atônito. Fico surpreso com a não existência de algo preparado para mim. Porém, compreendo que Deus e destino não caminham juntos. Ele seria muito cruel se deixasse eu me perder pelo caminho sabendo que poderia me espelhar em algo já pronto, acabado e definido. Por isso o meu livre-arbítrio é tão sagrado, é o único caminho que pode me levar a transcender. E depois, na ausência de dúvidas e necessidades, me encontrar com o Absoluto. Enquanto isso, eu sou um árduo caminheiro no desconhecido e fascinante caminhar da vida, com suas tantas ausências e outras tantas oportunidades de ser feliz como ninguém um dia o foi. Oxalá!
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