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| DIVINO Por Tiago Duque
Sobre armários e quartos Saí do armário aos 21 anos. Assumi a minha homossexualidade no início da juventude. Por isso posso dizer muito bem como é lá dentro. Afinal, até hoje aos 28 anos, vivi muito mais tempo dentro do que aqui fora. Às vezes ele nos protege e faz sentirmos-nos mais seguros; outras vezes é meio desconfortável e quase sempre não nos permite realizar vontades e desejos mais profundos. Estar no armário até faz sentido, pois não precisamos ter coragem para tudo. Nem sempre podemos ser quem realmente somos sem correr sérios riscos. A maioria dos homossexuais sabe disso, pois, passar pela experiência de ficar no escuro e no espaço apertado do armário, parece ser comum à nossa comunidade. Porém, tenho um amigo em especial, que me faz refletir sobre essa experiência. O Vitório é universitário e tem pouco mais de 20 anos. Evidentemente estou usando um nome fictício, porque quero respeitar esse seu modo tão limitado de olhar o mundo. Ou alguém consegue olhar por toda a sua volta estando dentro do armário? Bem, aqui não estou levando em consideração aqueles armários de fundo e portas de vidro, no qual estando dentro, todos os que estão do lado de fora te vêem, só você não percebe. Você acha que disfarça bem, mas está nítido que esconde algo que todo mundo já viu. Na casa do Vitório todo mundo abriu o jogo com ele há muito tempo. Disseram que não importa o que ele seja, sempre irão amá-lo. O que já poderia ser um bom motivo para ele se assumir de vez. Mas, parece que o Vitório saiu do armário, mas ficou no quarto. Isso mesmo! Não abre a janela, não recebe visitas, não caminha na rua e não participa de festas em praças. Ah! Mas adora boates GLS, é claro. Têm gasto todo seu dinheiro nelas e com a conta telefônica, devido aos incansáveis bate-papos com os amigos do “msn”, todos de outros estados do país, para assim não cair na tentação de marcar um encontro para o final-de-semana. Sei que não devemos ter dó das pessoas. Dizem que não presta. Mas acho que o Vitório tem dó de si mesmo. Logo ele, tão inteligente e aluno de um Centro de Ciências Humanas! Que é tão bonitão e simpático. Trabalhador e religioso. É isso! O problema talvez seja esse: a religião. Vitório é cristão. Ser cristão tem sido um problema ultimamente, sabia? Parece que essa condição nos têm levado à perdição e não à salvação. Veja esse meu amigo. Tem inúmeras citações religiosas que o auxiliam a viver assim tão enrustido. Mesmo todos os familiares sabendo e aceitando a sua orientação sexual, ele não se aceita. Ele tem tolerado a si mesmo, o que não é nada bom. Traz tristeza. Por isso, essa visibilidade primária de não se esconder dentro do armário, mas continuar trancado no quarto. E veja que essa não é a situação somente do Vitório. Há muitos “Josés” e “Marias” assim, digamos, semi-assumidos. Gente só de gueto e olhe lá! (considero a “net” também um gueto, ainda que virtual). Talvez o Vitório, em suas práticas religiosas cristãs, não tenha caído do cavalo, como a religiosidade popular afirma em relação a Paulo (na Bíblia a história não é bem assim!). Quando isto acontecer, ficará cego como o personagem bíblico e olhará para dentro de si mesmo. Depois do susto da queda e do reconhecimento da maldade que tem feito a si próprio, chegará à conversão. Aí, espero que se arrependa e que ainda tenha tempo de se lançar no mundo, sem jamais sentir falta do quarto ou do velho armário. Ei, Vitorio: não
perca tempo, bicha!
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