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Por
Tiago Duque
duque_tiago@hotmail.com]
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Do espelho para a rua
"Cada diferença é preciosa e deve
ser cuidada com carinho" Margareth Mead - Antropóloga
Ao chegar à esquina, lá estava ela. Belíssima. Com seu corpo torneado
a seu modo. Toda feita. Com cabelos lisos e longos, pernas brilhantes
e peitos invejados por qualquer mulher. Maquiagem suficiente para dar
ênfase a sua boca carnuda e ao seu olhar aparentemente ingênuo. Mãos delicadas
e grandes. Salto muito alto. Jóias para "inglês ver". Perfumada. É na
rua, muito mais do que diante do espelho que as travestis se orgulham
do que são capazes de produzir com os seus corpos.
A rua é o espaço onde a sedução acontece e quanto maior for o desejo dos
homens por seu corpo, maior será sua vaidade e sucesso em busca de um
feminino desejado. A rua é que lhe dá o poder de legitimar a sua feminilidade.
Sempre me chamou a atenção o fato de inúmeras boates gays terem espelhos
pela parede. É irresistível dançar sem se admirar. Em especial o figurino,
que muitos se esforçam tanto para compor. A vaidade homoerótica não tem
pudores ao se apresentar. Até já estamos influenciando os heterossexuais.
Existem inúmeros homens vestindo-se e manipulando produtos de beleza empregados
até então exclusivamente pelas mulheres. É o metrossexual em ação. O heterossexual
vaidoso, que faz as unhas e pinta os cabelos. Maquia-se e jamais sai de
casa sem passar suas peças. Talvez a figura mais exuberante em relação
a vaidade seja a Drag-Queen.
Nela tudo é exagero, seja de forma caricata ou não. Como é bom ser acolhido
por Drag ao entrar em uma boate. É como se estivesse permitido ridicularizar-se
de todas as nossas formas de sedução e mostrar-se em potencial para cativar,
seduzir ou fazer rir. É um verdadeiro bom gosto de abuso estético. Tudo
é permitido a uma Drag-Queen. Do deboche a emoção mais intensa. As lésbicas
também se entregam a super produções. O estilo "Lesbian Chic" é uma mostra
disso. Mas não são essas que mais me chamam a atenção. Gosto mesmo de
admirar as mais masculinizadas.
Seduzem-me. Sou dominado por uma "santa inveja" e vejo-as com respeito
especial. As calças largas e os peitos quase inexistentes. Os cabelos
cortados bem curtos, escondidos por um boné,e os tênis nos pés com aqueles
andares tão másculos. É a ousadia de se recriar um estilo e vivenciar
uma sexualidade da qual se tem orgulho. E por falar em orgulho, se nunca
foi a uma Parada do Orgulho Homossexual, não sabe o deleite para os olhos
que se está perdendo. Vê-se de tudo. Muitas vaidades, várias identidades.
Afinal, para muitos, é o único momento do ano em que se pode (com segurança)
a luz do dia mostrar-se como realmente é. A vaidade e o orgulho poderiam
ser vistos como pecado. Mas imagino que diante de tanta repressão e falta
de novos referencias estéticos, a vaidade e o orgulho de ser ou desejar
o que é pouco comum, ou ditado como anormal, são características fundamentais
para a re-configuração de nossa moderna sociedade. A Igreja Messiânica
tem na busca pelo belo uma de suas principais formas de relacionar-se
com o Sobrenatural, por isso em seus silenciosos templos sempre existem
lindas ikebanas e obras em cerâmicas. Sem vaidade e orgulho não se alcança
o belo, por mais simples que ele possa ser.
Mas atenção, não falo de qualquer vaidade, nem desse orgulhozinho bobo
de sentir-se como não se é. Seu orgulho e sua vaidade devem ser revelados
em plena criatividade, e que isso te constitua em alguém de bem, que te
dê visibilidade como alguém admirável, capaz de se amar e se valorizar,
de identificar-se consigo mesmo e viver sem medo de ser feliz. Que o espelho
nos dê a auto-estima necessária para que a rua, a cada dia, construa-se
como espaço de diversidade e respeito às diferenças estéticas e sexuais.
Que a busca pelo belo diversificado e livre de padrões seja uma expressão
de amor e um gesto verdadeiramente humano e especial, que essa expressão
criativa nos faça reconhecedores de onde todos(as) nós tivemos origem:
um(a) Deus(a) Sagrado(a), Inovador(a) e muito Criativo(a).
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