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DIVINO

Por Tiago Duque
duque_tiago@hotmail.com]

Nós, as mulheres e o sol

"Mas é claro que o sol Vai voltar amanhã,
Mais uma vez, eu sei.
Escuridão já vi pior, de endoidecer gente sã.
Espera que sol já vem..."

Renato Russo

Recebi um telefonema inesperado, de uma pessoa que amei muito: a minha ex-namorada. Ela ligou-me para comentar sobre a vida, assunto que sempre nos atraiu. Já fazia um tempão que não nos falávamos, inclusive preciso conhecer o seu filho e apresentar o meu namorado a ela. O marido dela é muito bonito, gente animada. Fui padrinho deles de casamento. Tudo bastante simples e sensível.

A Valéria me fez lembrar de coisas boas, de uma época onde eu era mais ingênuo, de uma adolescência cheia de aventuras e responsabilidades. Ainda que dia-a-dia eu esteja me tornado cada vez mais gay, afinal nossa identidade sempre estará em construção, jamais me esquecerei da sensação de seus cabelos longos e cacheados deslizando sobre as minhas costas. Ninguém pode negar a sensualidade da mulher, algo muito convidativo a entregas. Éramos cúmplices.

Cumplicidade é muito difícil, exige da gente. Bom mesmo é quando nos tornamos cúmplices sem grades esforços e de repete nos vemos companheiros. Nem sempre essas relações são naturais, muitas vezes é preciso muito cultivo e atenção com os nossos sentimentos para nos comprometermos com o outro, e tornarmos sinceros e verdadeiros com as necessidades daqueles que estão a nossa frente.

Os católicos têm um exemplo feminino muito bonito e nada fácil de ser seguido. A mãe de Jesus era uma dessas mulheres que nos deparamos em nosso tempo que intervém em meio às dificuldades sociais. Haja vista sua intercessão na festa de casamento em Canaã da Galiléia. Jesus atendeu a seu pedido diante da necessidade de alegria (vinho) na vida daquelas pessoas. Em meio a danças e palmas Maria intercedeu e contribuiu para o bem do povo (Jó 2). Ao dizer aos responsáveis por servir os convidados "- Faça tudo o que ele lhes disser" teve um ato político que refletiu em milhões de pessoas, afinal toda celebração mariana está fundamentada biblicamente nessa postura de Maria. Imagino o brilho sedutor do seu olhar diante do jovem filho. Há coisas que não tem como dizermos "não".

E por falar em política, durante a semana passada estive em uma caminhada por uma das principais ruas da cidade. Estávamos "panfleteando" e conversando com a população sobre a proposta de nossos candidatos ao cargo de prefeito e vice-prefeita. O vermelho das bandeiras animou a manhã cinzenta de quinta-feira. A nossa candidata à vice-prefeita, por sua fragilidade em relação ao seu porte físico e não por ser mulher, estava sempre acompanhada de um militante forte e esbelto. O carinho de cada um ou de cada uma que percorria aquela rua demonstrava muito cuidado e simpatia com a então provável futura autoridade. É um reconhecimento voluntário de alguém que já se propõe a interceder junto a autoridades maiores pela classe social que mais necessita que as mudanças continuem acontecendo na cidade. Tenho uma admiração pelas palavras de compromisso e de atenção especial a população mais necessitada que foram sendo proferidas em meio a um comício e outro. A própria prefeita atual têm colocado em prática essa forma feminina de gerir, de administrar e de liderar democraticamente. Lembro-me de uma de suas aulas (ela foi minha professora no curso de Ciências Religiosas) em que comentava sobre a sua tese. Estava admirada em perceber que as moradoras de rua cuidavam de suas moradias precárias e cheias de risco de forma muito carinhosa, atenciosa e transformadora devido o cuidado que tinham com o ambiente e com os familiares. Na rua aquelas mulheres praticavam a política do cuidado, da beleza e do compromisso com o bem estar dos seus companheiros. Por isso, lugar de mulher é na política.

Infelizmente o primeiro turno das eleições passou e não temos nenhuma mulher concorrendo ao cardo de prefeita ou vice-prefeita. Vereadoras foram eleitas, poucas por sinal, e uma delas já demonstrou durante os últimos meses preconceito explicito contra a comunidade GLTTB (Gays, Lésbicas, Travestis e Transexuais). E o pior: o vereador mais votado é grande defensor dos cães, resta-nos latir? A despolitização explicita dos munícipes de Campinas revela-nos que ainda optamos pelo mais fácil e pelas ações imediatas, o que nos trará problemas ainda maiores. O valor mercadológico das grades campanhas eleitorais e suas imagens midiáticas venceram as propostas concretas de construção de uma cidade mais justa e humana. Que será das assembléias populares do Orçamento Participativo? O que vai acontecer com os centros de referências às minorias dessa cidade? Para onde irá o nosso direito de participação reconhecido e valorizado pelos inúmeros Conselhos Municipais? O que será da Estação Cultura e das tantas vivências de democratização da cultura que aquele lugar proporcionou a tanta gente? E a pedagogia de inclusão social do CEMPROCAMP? Como se darão as oficinas de Hip Hop e de Capoeira nas escolas públicas? Como atuarão os agentes de saúde?

É preciso pensar qual cidade queremos, quais as questões de gênero estamos precisando valorizar. Que as milhares de Marias, Valérias, Sônias, Beneditas, Cecílias, Zélias, Izalenes e Antonias possam nos iluminar com suas ações politizadas e cheias de cuidados. Que nós homens ou mulheres possamos estar fora da sombra do machismo e da ignorância da despolitização que vem ocultando nosso brilho. Não é à toa que no livro do Apocalipse uma das imagens mais marcantes é uma mulher vestida com o sol (Ap12), rodeada de estrelas e com a lua sob os pés. A mulher e o sol estão aí para nos mostrar caminhos, aquecer corações e nos lembrar do poder de iluminar que nos cabe cultivar e desenvolver com muita cumplicidade. Então, consciente e críticos, façamos tudo o que elas nos disser e não sejamos ingênuos pensando que temos a capacidade de esconder o seu poder ou de apagar o seu brilho.

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