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| DIVINO Por
Tiago Duque
O bar, a igreja e os fiéis Não vou fazer comparações. Não quero cometer nenhum sacrilégio. Mesmo porque, devido a minha história pessoal, eu gosto muito mais de igrejas do que de bares. Mas não posso deixar de fazer uma analogia. A igreja e o bar estão muito próximos geograficamente. Separados por duas praças e uma rua muito movimentada. Ficam aqui no centro de Campinas. Ela aparece de forma escandalosa, fisicamente poderosa. Dentro dela muitas luzes e velas, flores e arte sacra de qualidade. Um belíssimo órgão de tubos. Pinturas até no teto. Algo de encher os olhos. Nossa Senhora do Carmo tem um lugar de destaque. Ele é bem mais discreto. Lugar pequeno, apertado. Não tem beleza. Com mesas e cadeiras insuficientes. O atendimento também não é dos melhores. Sempre que vou tomo um suco (sua especialidade) de açaí com banana, leite e pó de guaraná. O número 122. O que me surpreendeu foi ter ido à missa no último domingo e ter percebido que muitos gays saem dela e vão para ele. Sim, ainda há muitos gays que vão à missa. A liturgia católica realmente não é nada convidativa e acolhedora a comunidade homossexual. Lá não podemos abraçar os nossos namorados. Não temos uma benção pela nossa forma de sentir prazer e amar. Mas é um local que me faz sentir bem. Talvez esteja sendo contraditório, por isso explico: me faz bem saber que sou aceito, Deus me aceita por inteiro e isso fica muito claro quando rezo, e a igreja ainda é um bom lugar para rezar. Em relação ao bar que me refiro, os fiéis sentem-se bem mais à vontade. Lá podemos nos abraçar e beijar. Ninguém vai nos incomodar. Somos aceitos? Não podemos ser ingênuos. O nosso dinheiro é aceito. Esse bar em especial não foi pensado para a comunidade homossexual. Apenas fomos indo e de repente éramos muitos. Essa reflexão me fez perceber que a aceitação precisa ir além do espaço físico e deve ser construída internamente. É evidente que existe a exclusão, e não é só social, mas principalmente moral. Por isso, é causa nobre lutar pelos mesmo direitos entre homossexuais e heterossexuais em espaços públicos. Porém precisamos re-significar o nosso olhar sobre o mundo, mas principalmente sobre nós mesmos. Uma das coordenadoras que orientam o meu estágio em um projeto de alfabetização de jovens e adultos definiu cidadania na última reunião como sendo a capacidade que as pessoas têm de criar novas formas de viver em comunidade. Quando alguém descobre que é capaz de criar ou reinventar a sua existência e conseqüentemente a dos(as) mais próximos(as) se reconhece como cidadão(ã). Somos cidadãos quando criamos um novo jeito de ser e estar no mundo, independentemente do que está imposto ou previamente determinado. Cidadania vai muito além de um comportamento esperado, dentro da normalidade. Toda espiritualidade deveria nos conduzir a essa cidadania. Ao sair daquela igreja e entrar naquele bar, eu e outros gays, estamos buscando inovar e com isso celebrar uma identidade que se apresente de forma inteira e verdadeira. Assim, acreditamos estar mais próximos do sentido de nossas vidas. Mas, é claro, existem outros caminhos para atingi-lo, que não passa necessariamente por essas ações, afinal somos únicos(as) e diversificados. Por isso, se ainda não encontrou o seu, busque-o. Espero que estejamos no caminho certo ou pelo menos que fique a certeza do amor de Deus e as incertezas que nos cabem descobrir e questionar. Crie e proponha algo novo. Para isso
não é preciso abandonar tudo, mas às vezes contradizer
a ordem vigente e não se preocupar em viver o que afirmam ser imoral.
Reze e beba, silencie diante do altar e sorria em volta de uma mesa de
bar. Não fuja das contradições, mas cuide-se para
não ser incoerente. Isso tudo é possível e pode ser
leve se aceitar e amar o que você realmente é. Lembre-se
do que Javé disse ao profeta Isaías: "... tu és
preciso aos meus olhos, por que eu te aprecio e te amo." (Is
43,4)
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