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| DIVINO Por Tiago Duque
Aceita chuchu Dialogar não é fácil. Criar uma relação de cumplicidade a partir do que se tem a dizer exige sabedoria. A minha avó sempre dizia diante das minhas malcriações de criança: "O peixe morreu por causa da boca dele!". Na comunidade homossexual, como em qualquer outra, falar o que se pensa é sempre comprometedor. Mas é na relação conjugal que o desafio se torna maior. Contraditoriamente, quanto mais íntima, mais difícil de se falar certas coisas. Porém, parece-me que é uma questão de tempo. Ouvi de tios que estão
casados há décadas que certa vez, em um período bastante
miserável da história de nossa família, só
havia uma opção de "mistura", como dizem em relação
ao alimento que acompanha o arroz e o feijão de cada dia. Era chuchu
cozido, chuchu frito, chuchu assado, bolinho de chuchu, salada de chuchu
e até sopa de chuchu. Meus tios eram recém-casados, bastante
íntimos, mas ele não tinha coragem de falar para ela que
não agüentava mais comer chuchu. Sem dinheiro para outra "mistura",
ela cozinhava com bastante criatividade a partir do que o quintal lhe
oferecia: uma exuberante parreira de chuchu plantada junto à cerca.
Certo dia, longe de enfrentar um diálogo sobre os chuchus e seu
mal-estar de tanto saboreá-los, meu tio correu ao quintal sem que
minha tia o visse e rapidamente desenterrou o pé de chuchu e afofou
a terra para que ninguém percebesse. Dias depois não se
via mais aquele verde claro tão atraente na cerca, restavam apenas
folhas murchas e secas. O pé de chuchu havia morrido. Em um gesto
heróico meu tio "arrancou o mal pela raiz". Minha tia
quis tirar satisfações com o vizinho, mas foi tranqüilizada
por meu tio que ponderou que o vizinho já era um amigo bastante
antigo da família e que ela não deveria criar confusão
por uma parreira de chuchu. O tempo pode passar e muitas coisas ficarem para trás. Tem coisas que se não falarmos na hora, perdem totalmente sua importância. Já imaginaram um " - Eu te amo" não dito em um passeio na roda gigante ou um " - Surpresa!" ao ver a porta do apartamento se abrir inesperadamente em uma manhã de terça-feira e o(a) amado(a) com cara de bobo te abraçando? Difícil mesmo é ter que engolir tudo o que se deseja falar. Às vezes vale a pena não ser inconveniente, porém, em muitas ocasiões é necessário incomodar. O importante é ter claro ou criar um movimento de ter consciência do que é preciso ser dito ao outro. Amar sempre dá certo, mas dialogar parece ser o segredo das relações intensas e verdadeiras. A nossa moral religiosa não nos permite trair nossos parceiros. A moral religiosa não entende a complexidade dos desejos do corpo e não é capaz, coitada, de separar sexo de amor. Buscamos os mesmos valores tradicionais das relações heterossexuais para uma vida conjugal homossexual. Muitos conseguem, mas outros tantos percebem que esse não é o melhor caminho a ser construído. Então, como a fidelidade é entendida somente a partir do corpo (matéria) e não também dos desejos (subjetividade), transar com alguém quando se tem namorado parece ser sempre imoral e uma traição. Entendo a fidelidade
também a partir da subjetividade (dos desejos) e não exclusivamente
pelo corpo em si. Mais do que sexo, infidelidade é traição
quando a cumplicidade de sentimentos covardemente deixa de existir entre
os pares. Não faço aqui uma apologia ao famoso relacionamento
aberto, nem à hipocrisia de quem aceita tudo, desde que não
fique sabendo. Defendo um diálogo comprometido com os desejos e
os sentimentos que uma relação homossexual pode proporcionar
no contexto de um ambiente que nos cobra tantos valores tradicionais equivocados.
Comer chuchu todos os dias pode até ser sadio, mas não nos
traz a sensação de experimentar o novo sem nunca perder
a paixão que se tem pelo velho; a sensação de descobrir
novas possibilidades sem deixar de valorizar as existentes; a sensação
tão prazerosa de perceber que o amor transcende o sexo e de que
nosso egoísmo já não toma o outro como exclusivamente
seu. As relações amorosas devem ser repensadas sem medo
e, em vez de "arrancar o mal pela raiz", quem sabe cultivarmos
outras possibilidades de fidelidade e de permanecermos amando com liberdade
e dialogando sempre...
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