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DIVINO

Por Tiago Duque
duque_tiago@hotmail.com]

A escola não é para todo mundo

 A conversa com uma amiga travesti, me fez escrever este texto. A criança a qual a trata como “pai”, que está sobre a sua guarda, tem ido mal na escola nos últimos meses. Descobriram que é porque tem sofrido preconceito por ter um “pai diferente”. Confusão que tem sido resolvida por essa amiga travesti e pelos educadores da garotinha com muito cuidado e sensibilidade.

Esta situação reportou-me ao meu período escolar do Ensino Fundamental. Era horrível saber que o dia estava ensolarado e teríamos aulas de Educação Física. Nunca gostei. Passava muita humilhação. Tinha medo. Todos sabiam, menos eu. Nunca conheci as regras do futebol. Ninguém me ensinou. Sempre era o último a ser escolhido para o time. Meus amigos já haviam se convencido de que não valia a pena apostar em mim, quando muito, saía um gol contra. Façanha da qual eu era o único a realizar com certa freqüência. Hoje eu sei que isso é uma típica questão de gênero. O professor e todos os outros garotos entendiam que por eu ser menino teria que naturalmente saber jogar futebol.

A religião sempre me ajudou, principalmente nesses momentos difíceis. Era quase automático clamar por Deus. Mas não resolvia. Acho que Deus nunca soube o que é ser menino e não saber jogar futebol. Queria poder acreditar no arrebatamento, como alguns amigos presbiterianos e adventistas. Assim, quem sabe teria a santa sorte de ser arrebatado, isto é, subitamente ser levado para um outro plano, de desaparecer antes de tocar o sinal para sairmos da sala de aula e irmos até a quadra poliesportiva. Mas, como isso não aconteceu, a minha fé (de que existem coisas muito maiores e mais importantes do que uma partida de futebol) aumentou e ficou forte, porque ela era a única coisa com que eu podia contar. E hoje, ela está bem maior do que eu podia imaginar. Porém, ainda não consegui me livrar de toda a estigmatização de não ter sido igual a todos os outros meninos.

Porque o que eu gostava mesmo era de começar caderno novo, de admirar meu calo no canto do dedo direito “pai de todos” de tanto escrever, de desenhar e pintar, de ficar na biblioteca, de apagar a lousa para a professora e sentar nas primeiras carteiras. Afinal, na frente é mais fácil prestar atenção e participar da aula. Muito diferente de um de meus irmãos que freqüentava séries anteriores às minhas. Situação propícia a comparações entre os professores sobre as nossas notas e comportamentos. Minha mãe sempre ia às nossas reuniões escolares. Coitada! Era comum ouvir reclamações do Marcelo e elogios do Tiago. Na última reunião da vida escolar do meu irmão, ela se emocionou: ouviu vários elogios sobre ele. Haveria o moleque mudado de repente? Não! A professora havia confundido-o com outro garoto com o mesmo nome e rapidamente desculpou-se, relatando todas as arruaças do Marcelo, filho da Cecília, para que todas as outras mães pudessem ouvir.

O perfil do Marcelo era o de companheiro de todo mundo, sarrista, impaciente, e claro, ótimo aluno de Educação Física. Em casa, ele sempre adorou desmontar os seus carrinhos e brincar de vender as peças, enquanto eu ainda tenho alguns dos meus guardados em bom estado. Lembro-me dos seus cadernos, sempre cheios de “orelha”. Nunca se interessou por colocar prendedores de madeira, usados para segurar a roupa no varal, nos cantos das folhas amassadas no final de semana para que na segunda-feira tivesse com o material em ordem. A professora não entendia porque fazer com que o Marcelo repetisse centenas de tabuadas postas coluna a coluna no caderno não o intimidava a se comportar como ela entendia ser adequado; este castigo da “educadora” não funcionava com ele. E, mesmo assim, conseguia ter pensamento rápido e lógico ao ponto de nunca ter repetido de ano; além de ter sido selecionado para o melhor estágio do colégio técnico.

Conclusão: atualmente o meu irmão é um excelente profissional da informática e do mundo virtual. Ganha muito mais dinheiro do que eu, mas, a escola e as aulas teóricas não eram para ele, assim como as aulas de Educação Física nunca foram para mim. Éramos ironicamente opostos, mas nenhum de nós dois fomos tão bons alunos assim, pois, haviam pelo menos dois pressupostos básicos para se dar bem no “SESI 05“: era obrigado ter perfil disciplinar e saber, caso fosse menino, a jogar futebol.

Assim, somos cobrados a sermos meninos iguais a todos os outros meninos e ter pais como de todas as outras crianças, como vem sendo cobrada a filha da minha amiga travesti. Pois, jamais devemos fugir às expectativas. Afinal, não há, muitas vezes, espaço para as diferenças na escola. A escola não é para todo o mundo.



Tiago Duque é teólogo leigo, socioólogo formado pela PUC-Campinas e Coordenador de Articulação com Movimentos Sociais do Identidade - Grupo de Ação pela cidadania LGTTB.

 



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