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DIVINO

Por Tiago Duque
duque_tiago@hotmail.com]

Ébano e Marfim

O professor e antropólogo Peter Fry que me desculpe, mas sou favorável às cotas como política de ação afirmativa. Não poderia ser diferente. Por onde olho há desigualdade étnica/racial. Lembro-me de uma ex-aluna minha de 6ª série perguntando-me: “Professor, porque você é a favor das cotas?” Foi muito fácil responder: “- Veja aqui no colégio, há quantos alunos que vocês consideram negros?” A sala silenciou-se e olharam assustados para mim. Era como se pela primeira vez alguém chamasse a atenção daqueles adolescentes para que percebessem se havia negros por perto. “- Sete professor”. Continuei: “- Muito bem. São sete alunos negros em um colégio de mil e setecentos alunos! E destes setes, quantos são filhos de funcionários?” Respondeu-me a garotinha em um tom mais baixo entendendo onde eu queria chegar: “- Cinco professor”. Prossegui: “- Destes cinco, quantos são filhos de professores?” O silêncio prosseguiu, afinal além do número insignificante de alunos identificados como negros naquele colégio, a maioria deles eram bolsistas, e bolsistas porque seus pais eram todos funcionários responsáveis pela limpeza da escola. Não havia nenhum bolsista negro que fosse filho de professores. Mesmo porque, não havia professores negros naquela escola. Então, os alunos de 6ª série do colégio católico elitista que trabalhei reconheceram que alguma coisa estava errada. Compreenderam a importância das cotas.

No universo gay, questões voltadas à negritude também são polêmicas. Na última parada do Orgulho LGTTB de Campinas/SP, as aproximadamente 12 mil pessoas presentes puderam ver uma drag caricata negra, preconceituosamente performática, desvalorizar as religiões de origens africanas com seu “show” infeliz.

Porém, como há também ações afirmativas em nosso meio, no mesmo ano, aqui na cidade de Campinas, a Mãe de Santo “Mam’ etu Dango” (Inzo Musambu Hongolo Menha) posou para uma campanha de prevenção às DST/Aids sob o slogan “Ninguém precisa ser santo. Preserve seu santuário”. Para a mesma campanha o Pai de Santo Babá Toloji (Comunidade de Tradição Afro Ilesin Ogun Lakaiye Osinmolé) foi fotografado sob os letreiros “Consulte os Búzios mas faça o teste!”. A idéia surgiu dos artistas da ACADEC - Ação Artística Para Desenvolvimento Comunitária. Com o meu olhar de interpretador cristão, ousaria afirmar que esses líderes do Candomblé agiram em plena inspiração do Espírito Santo de Deus! Isto é, cheios de santidade e sabedoria!

No entanto, entre os LGTTBs há uma forma bastante particular de preconceito contra os negros. Refiro-me aos negros afeminados que são desvalorizados porque aparentemente fogem do padrão idealista do bofe negro ativo e bem dotado. Esses homossexuais negros são reduzidos à sua imagem que não se integra àquilo que nos fizeram aceitar sobre a potencialidade da sexualidade viril dos negros machos. Assim, nessa lógica, quem era para ser “bofe”, caracteriza-se como “biba” e é quotidianamente oprimido em nosso meio.

Por isso, diante da invisibilidade dos negros em nossa sociedade paradoxalmente à sua visível exclusão, defendo a reserva de vagas nas instituições federais de ensino superior para afro-descendentes (inclusive para indígenas e estudantes oriundos de escolas públicas). Porém, quero ir além: para nós, homossexuais masculinos, também deveria ter cotas para negros entrarem nos espaços mais íntimos da nossa vida. Todos deveriam ter um melhor amigo e um namorado negro! Assim, poderíamos provar que a convivência junto da negritude nos possibilita rever nossos conceitos e descobrir novas potencialidades humanas, dos negros principalmente, percebendo que a pele carrega uma história sim, mas também produz uma rica diversidade que por preconceito ainda não descobrimos sua real dimensão e valor.

Eu já estou cumprindo a minha “política de cotas amorosas”. O “meu companheiro negão” é bailarino de jazz e sapateado americano, além de cursar Educação Física em uma Universidade Particular. Detalhe importante: ele está inscrito no processo seletivo para adquirir uma bolsa de estudos para poder concluir sua formação acadêmica. Ele têm me mostrado que juntos podemos ser negros performaticamente ativos contra o preconceito. “Juntos” porque mesmo com esses meus cabelos lisos e essa cor de pele não tão “preta”, me identifico como negro. Já ele, devido a sua cor de pele, traços e características físicas, ninguém questiona a sua negritude.

Com isso, entendo que todos nós podemos experimentar uma nova sociedade e promover a afirmação de todos e todas sem injustiça e desigualdade racial mas, para isso, temos que ser menos preconceituosos e mais afirmativos. Assim, com o passar do tempo, poderemos deixar de ouvir, devido a homofobia e o racismo, a triste e criminosa expressão: “Como se não bastasse ser preto, ainda é viado!”


Tiago Duque é teólogo leigo, socioólogo formado pela PUC-Campinas e Coordenador de Articulação com Movimentos Sociais do Identidade - Grupo de Ação pela cidadania LGTTB.

 



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