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| DIVINO Por Tiago Duque
Vamos delirar? Gosto de ouvir a CBN, provavelmente porque não tenho TV (uma opção). Hoje é sexta-feira (talvez não seja quando você estiver lendo essa crônica). O conceituado radialista me informou que depois de um debate sobre a tendência dos meios de comunicação em divulgar apenas notícias ruins recebeu muitos e-mails de seus ouvintes concordando com a tal postura. Então o pessoal da CBN teve uma idéia: durante todas as sextas-feiras (pelo menos naquele programa) divulgariam somente notícias boas. Gostei do informe, mesmo sabendo que não deverá durar muito tempo. Quando morava em Limeira - SP, ainda criança, ouvia muito o rádio. Meu avô tinha um e minha avó tinha outro. O dela, sempre na cozinha, o dele onde ele estivesse. Lembro-me em especial dele sentado à sombra de uma enorme mangueira com o rádio ao pé do ouvido, após ter aguado o canteiro de almeirão que plantara somente para tratar de seus canários. Som muito alto. As notícias nem sempre eram boas, mas cotidianamente riam com algo que ouviam. Ela ria de forma menos discreta do que ele. Eduardo Galeano tem um texto intitulado "Direito ao Delírio", foi em que me lembrei quando ouvi a CBN nessa manhã. Confesso que nenhuma das boas notícias que ouvi me agradaram. Nem eram tão boas assim. Então resolvi exercitar o direito defendido por Galeano. O primeiro delírio foi ouvir: "Extra! Extra! Mesmo o Brasil voltando atrás de sua iniciativa de propor a ONU que reconheça os direitos sexuais como direitos humanos os países de religiões extremamente fundamentalistas apresentaram a proposta" O segundo veio em seguida: "Atenção: presidente metalúrgico apresenta projeto de união civil entre pessoas do mesmo sexo!". Outras vozes surgiram: "Papa pede perdão e institui a Pastoral da Diversidade Sexual". "Mães saem à rua e reivindicam que seus filhos homossexuais sejam respeitados nas escolas". "Juiz de cidade do interior da Bahia assume homossexualidade aos 60 anos". "Movimento Organizado de Bissexuais elege Deputado Estadual". "Assassinos de travestis são presos pela polícia". E por fim: "Consumidores boicotam marca de cerveja que explora o corpo da mulher". Em êxtase depois de tanto delirar pensei o porquê dos meus avós gostarem tanto de rádios e o motivo de estarem sempre de bem com a vida. Acho que eles deliravam com freqüência. Isso justifica os sorrisos de hora em hora diante das notícias. Santo Agostinho, também delirava. Antes e depois da conversão. É dele a frase; "Ame e faça tudo o que quiseres". Santo Inácio de Loyola, em suas orientações para os Exercícios Espirituais (espiritualidade jesuítica) afirma que devemos usar das coisas criadas no mundo o tanto quanto nos ajudem a atingir o nosso fim, e privar-nos delas o tanto quanto nos afaste dele. Tal liberdade espiritual só pode ser fruto de momentos de profundo delírio. Madre Cândida, beatificada recentemente, confessava: "O mundo é pequeno demais para os meus desejos" e "Onde não há lugar pra os pobres não há lugar para mim". São Francisco, fora de si, questionava: "Senhor, o que queres que eu faça?". Soa João da Cruz, delirando de amor, refere-se a Deus; "Oh chama de amor viva, que ternamente feres!". Se tanta gente boa delirou, é porque deve ser bom. Eu já experimentei. Sinto-me mais esperançoso por isso. Remete-me a sensações que poderão existir de fato. Utopia? Não sei. Acho que não. Talvez o mundo que queremos esteja mais próximo de nós do que imaginamos. A quimera pode torna-se realidade. A realidade pode constituir-se como aquele sonho que a gente nunca queria que estivesse terminado. De deliro em deliro, santos(as) ou não, construiremos o que tanto sonhamos, afinal, "um outro mundo é possível". E então, não só às sextas-feiras, ouviremos boas notícias. Você já delirou hoje? Que tal começar agora?
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