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| DIVINO Por Tiago Duque
Tudo por R$ 1,99 Caminhando pelo bairro Santa Cecília em São Paulo com o Adilson, irmão camarada, avistei algo interessantíssimo. Uma típica loja de R$ 1,99. Em meio a baldes, colheres, bolsas, abajures, guarda-chuvas, carrinhos, espelhos, girassóis de plástico e panelas havia algo inusitado na fachada que me intrigou. Quase fotografei. Era uma manequim vestindo um figurino parecido com o daquela antiga personagem Tiazinha, com direito a chicotinho na mão e máscara no rosto. Quem autorizou aquele fetiche ser exposto ao lado dos baldes e das panelas? E logo a R$ 1,99! Os desejos das pessoas estão aflorados. Vivemos um período histórico em que o corpo e a sexualidade estão sendo valorizados e ao mesmo tempo desconsiderados. Valorizados porque há um apelo cotidiano à vivência da sexualidade enquanto consumo, sim, porque o capitalismo não poderia estar fora dessa; e desconsideradas devido a banalização dos corpos que estão fora do padrão estético e das exigências do mercado. São corpos desconsiderados os gordos e pesados, os magérrimos com seus ossos a mostra, os siliconados pelas travestis, os famintos e cheirando mal das esquinas, os suados dos canteiros de obras, os engravatados trabalhando atrás dos volantes dos ônibus públicos, os encarcerados e marcados pela violência das ruas, o das crianças indígenas desnutridos e os daqueles que unicamente por serem negros, estão de mãos postas nas paredes durante a batida policial. Wanderley Codo e Wuilson A. Senne escreveram um dos livros da Coleção Primeiros Passos intitulado O que é Corpolatria. Segundo eles, corpolatria é a religião católica pelo avesso, por isso, outra religião; inverteram-se os sinais, a busca da felicidade eterna antes carregava em si a destruição do prazer, hoje implica o seu culto. O corpo deixou de ser inferno para tornar-se céu. E um céu como centro do universo, individualista e todo narcisista. O que importa é o meu belo corpo, não o corpo dos demais. Tenho ido à academia de ginástica com freqüência nos últimos meses. É prático e solitário, não preciso marcar horário e nem formar equipes ou times. Não há cobrança do treinador e não preciso provar que sou melhor do que ninguém. Além, é claro, de poder admirar corpos muito sensuais. Mas entre o supino reto, mesa extensora, triceps na polia, rosca inversa, elevação laterial e o peck deck, não posso e nem devo tornar-me corpólatra, esquecendo-me do compromisso com os demais, da necessidade que tenho de todos os outros corpos, da felicidade que vai além das repetições dos exercícios físicos, do privilégio que é poder suar em uma academia enquanto outros jovens têm suado em seus postos inseguros de trabalho, da fragilidade do meu físico e da beleza que deve ir além do fator estético A religião do corpo precisa abrir espaço, não para a religião da razão, mas para a religião da emoção e da sensibilidade. Assim, o valor dos fetiches e dos corpos sarados estarão além das exigências do mercado. Serão corpos caros em relação à sua sensibilidade e emotividade para com os demais, para além de si mesmos, reconhecedores de todas as outras possibilidades de se constituir prazerosamente pessoa com um corpo que responda à sua mais intima e pessoal história e sentido de vida. Os nossos corpos, ao sairmos da academia de ginástica, precisam ser considerados e valorizados independentemente das exigências do consumo, fora dessa lógica capitalista, caso contrário, futuramente nos assustaremos com um belo físico sarado sendo oferecido a R$ 1,99 nas mais populares lojas de nossas cidades. E diante deles, veremos ainda os famintos e violentados suplicando centavos pela sua sobrevivência.
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