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| DIVINO Por Tiago Duque
Pecado é não amar 666. Esse é um número assustador. Me dá medo pelo que representa. Não é o demônio não. É um líder ditador do Império Romano. Nero é seu nome. Confiscava os bens e escravizava os primeiros cristãos. São João não podia dirigir-se a sua comunidade criticando o imperador de forma clara e direta. A literatura apocalíptica o auxiliou. Cada letra do alfabeto hebraico correspondia a um valor numérico. A somatória das letras do nome do imperador é 666. Podemos pensar ainda que 6 é quase 7, sendo 7 a representatividade da perfeição e da totalidade (7 pecados capitais, 7 sacramentos, 7 dias da semana, 7 dons do Espírito Santo). 6 parece perfeito e total, mas não é. É interessante ainda pensarmos que repetir 3 vezes era sinal de confirmação naquela cultura (3 dias depois de sua morte Jesus ressuscitou, o galo cantou 3 vezes após Pedro ter negado seu mestre, havia apenas 3 pães além dos dois peixes no cesto que Jesus deu para comer a uma multidão). Isso tudo faz com que o livro do Apocalipse (que quer dizer esperança) nos revele uma Literatura Joanina comprometida com a situação histórica e política do seu tempo. Ocorreu o mesmo com os nossos cantores da MPB no período da ditadura militar. A linguagem simbólica salvou a força crítica e criativa. Os ditadores não compreendiam as letras libertárias. Assim como os militares de algumas décadas atrás, Nero me assusta. A capacidade de provocar o mal e de exterminar o bem, se é que isso seja possível, continuam presentes em tantas ações em nosso cotidiano. Ações repletas de ausência de amor. Onde não há amor, não há Deus. A isso deveríamos chamar de pecado. Tudo aquilo que nos afasta do Sobrenatural, dos outros e de nós mesmos é pecaminoso. Percebo que não há espiritualidade verdadeira que não passe pela relação com o outro. Acredito que o caminho é identificar-se com o nosso próximo. É no outro que Deus se revela a nós. Mas não é um "outro" que escolhemos, que nos parece mais fácil de amar. O próximo, a gente não escolhe e aí está todo o segredo do encontro com o Sobrenatural. Muitos(as) tentam um diálogo direto com Deus sem experimentar a aproximação com as pessoas. Os anacoretas, homens embriagados de Deus que viviam nos desertos, longe das cidades, isolados no alto de colunas, jamais conseguiriam sobreviver se não houvesse um discípulo que levasse o mínimo de alimento para a sua existência. O silêncio e o isolamento são fundamentais. Mas não podemos ser tão poucos espirituais de nos contentarmos somente com nossas orações isoladas antes de dormir. O exigente e comprometedor diálogo com a nossa realidade também deveria ser motivo de nossa oração. O maior pecado não está nos desejos de nossos corpos, no objeto de nosso prazer. O maior pecado está na falta de politização, de crítica e de auxílio aos nossos próximos. Hoje, há muitos "Neros" e ações ditatoriais que nos levam a morte. Por isso, a retórica espiritual nada vale diante do comodismo e da anulação do seu poder social de mudar a realidade. A sublimação de vontades tem valor quando acompanhada de serviço. Promessas deveriam nos levar a uma maior ação comunitária, novenas às atitudes menos egoístas, jejuns a serviços aos outros e esmolas a posturas menos assistencialistas. Conduza o foco da definição de pecado do seu corpo (desejos proibidos) para a sua prática social, atente-se a intensidade de sua omissão política. As LGBTTs (Lésbicas,
Gays, Travestis, Transexuais e Bissexuais) são condenadas pelo
que sentem e fazem. Bonito seria se todos nós fossemos cobrados
pelo que deixamos de fazer e assim o fosse com todos os outros grupos
sociais. O pecado deixaria de ter definições tão
medíocres e superficiais. Pecado jamais é fonte de prazer,
sexo é prazer. Pecado é não amar.
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