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DIVINO

Por Tiago Duque
duque_tiago@hotmail.com]

Nossa Senhora do Aborto

Sou devoto de Maria. Principalmente da Aparecida, a mãe negra dos pobres da América Latina. Para quem não sabe, todas as Nossas Senhoras são representações de Maria de Nazaré, a mãe de Jesus da Galiléia. Para cada aparição da jovem judia aos fiéis da Igreja, foi criado um ícone e uma representação daquela que a tradição da Igreja Católica Apostólica Romana chamou de “Mãe de Deus e da Igreja”. Por isso existem tantas Nossas Senhoras, afinal, o povo tem necessidade de se identificar com o Sagrado e se ver reconhecido nas expressões simbólicas da Igreja, estreitando assim a relação com a divindade.

A religiosidade popular, riquíssima em suas expressões de fé, contribuiu para a diversificação da Devoção Mariana. O povo clamava, louvava ou invocava por Maria nas mais diversas situações: Nossa Senhora das Cabeças, Nossa Senhora da Assunção, Nossa Senhora da Boa Morte, Nossa Senhora da Guia, Nossa Senhora dos Pobres, Nossa Senhora dos Viajantes, Nossa Senhora da Paz, Nossa Senhora da Vitória, Nossa Senhora de Fátima (por ter aparecido na cidade de Fátima, em Portugal), Nossa Senhora de Guadalupe (por ter aparecido na cidade de Guadalupe, no México), Nossa Senhora de Lourdes (por ter aparecido na cidade de Lourdes, na França).

Então, existe uma Maria para cada ocasião? Simplificadamente poderia responder que sim. Por exemplo: imagino que milhares de mulheres e também muitos homens, já louvaram ou clamaram por ela na hora do nascimento de uma criança. Um parto não é fácil, principalmente porque não são todos os bebês que têm tido o direito de serem assistidos adequadamente em suas últimas semanas dentro do útero da mãe.

Sabemos que gravidez não é doença mas uma realidade complexa, exigindo cuidados materiais e sentimentais que muitas vezes não são vivenciados pelos envolvidos no processo de gestação. A gravidez nos remete ao Sobrenatural inconscientemente, por que é uma situação de vida misturada com fragilidade. O próprio Jesus passou por um parto de risco, motivando a existência da Nossa Senhora do Bom Parto.

Pensando assim, imagino que deveria existir também a Nossa Senhora do Aborto. Sim, porque todos sabem que milhares de mulheres, na maioria das vezes, adolescentes pobres como a própria Maria, sofrem a dor de não poder decidir sobre o destino de seu próprio corpo. São impedidas de interromper uma gravidez não planejada ou até mesmo indesejada, assumindo o que deveria ser alegria como a mais violenta das imposições.

Não é novidade nenhuma os altos índices de mortalidade materna ou de seqüelas nos corpos de mulheres que provocam o aborto de forma clandestina. Os dados apresentados por aqueles e aquelas que defendem a sua legalização apontam para a ocorrência de 750 mil abortos inseguros feitos anualmente no Brasil, sendo que destes, 250mil provocarão internações posteriores no SUS – Sistema Único de Saúde – em conseqüência das complicações do aborto ilegal. Esses dados são divulgados pelo movimento feminista brasileiro. Realidade dramática e desesperadora que justifica perfeitamente a intercessão à Nossa Senhora por aqueles e aquelas mais religiosos, afinal o aborto é a 4ª causa de morte materna neste país.

Todas as aparições de Maria conduzem à vida. A idéia do aborto ainda está muito identificada primeiramente com a morte, por isso parece violento relacionar a imagem da Virgem ao aborto. Mas será que já não chegou o momento de entendermos ou talvez nos questionarmos sobre a possibilidade de que um aborto, nos primeiros momentos da gestação, possa gerar muito mais vida do que uma gravidez indesejada?

Maria aceitou uma gravidez não planejada. Parece que ela e José não pretendiam ter filhos antes do casamento. Além disso, ela correu muitos riscos, poderia inclusive ter sido apedrejada se denunciada por José, por ter aceito o pedido do “anjo” enviado por Deus. A questão que eu apresento para a nossa reflexão é: Será que todas as outras mulheres do mundo também precisam agir assim?

Proibir é muito mais cômodo do que rever posturas. A Igreja não educa para a sexualidade responsável. Apenas posiciona-se contrária e não cria espaços de vivências que gerem práticas sexuais comprometidas com a vida. Ou alguém ainda acredita que pregar a virgindade fora do casamento e o não uso do preservativo educa os adolescentes e jovens a desenvolverem uma vida sexual “sadia” e amorosa? Deveríamos antes de tudo rever nossas posturas morais e encarar a realidade com mais cuidado e lucidez, à luz do grave problema social que vivemos neste momento, para não nos tornamos perversos e destituídos de compaixão, ao continuar dizendo mecanicamente: “ Sou contra!”.

Espero que essas reflexões não me posicionem apenas junto de Maria, como revela a simbologia do ícone da Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Nela aparece Jesus Menino nos braços calorosos da mãe, com um dos chinelinhos de seus pés preso apenas por um fino fio de couro. O chinelinho dependurado representa todos nós pecadores, presos à salvação (Jesus) por apenas um fio. Que o meu pecado seja outro, mas não esse de querer instituir mais uma Nossa Senhora que responda às dores e alegrias de seu povo, em especial daqueles que sofrem pela própria postura tradicional da instituição que seguem, a qual não possibilita uma reflexão séria sobre esse tema de vida e de morte. E que num futuro não muito distante oportunize aos fiéis o espaço para o debate democrático sobre as pesquisas científicas que sugerem que um embrião é apenas um embrião, sem nenhuma característica que possibilite a comparação entre ele e qualquer ser humano.

Assim, Nossa Senhora, seja do Aborto ou não: rogai por nós!




Tiago Duque - Bacharel em Ciências Religiosas, estudante de Ciências Sociais da PUC-Campinas e Coordenador de Articulação com Movimentos Sociais do Identidade - Grupo de Ação pela cidadania LGTTB.

 



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