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DIVINO

Por Tiago Duque
duque_tiago@hotmail.com]

O medo da rua

O cronista carioca João do Rio (1981-1921) tem um livro intitulado "A Alma Encantadora das Ruas". Nele o autor declara todo o seu amor às ruas e afirma que elas possuem almas! Porém, alerta: "Rua é como cobra. Tem veneno. Foge da rua!"

Infelizmente muitos deixaram de se apaixonar ou amar a rua devido a forma como ela vem se constituindo e, principalmente, devido a concorrência com outros espaços. O shopping é um desses concorrentes. Poucos saem às compras nas ruas quando se tem um shopping à sua disposição. Esse comportamento, tipicamente moderno, é caracterizado pela desvalorização do espaço público. Aquilo que é de todos tornou-se sem prestígio em detrimento daquilo que pode ser apenas de alguns. Ou alguém acha chique subir a Rua Treze de Maio (a mais movimentada da cidade) aos sábados pela manhã?

Um amigo meu desistiu de me ver desfilando em uma escola de samba no último carnaval porque foi insuportável sentir-se próximo de muitas pessoas na rua. Teve medo. Afinal, fazia muito tempo que não andava pelo centro da cidade, ainda mais no período da noite. Mas, ele tem ido sempre aos shoppings. Lá, sente-se mais seguro; mesmo com toda aquela multidão aos sábados.

Na Bíblia, em uma das mais belas passagens do Evangelho, uma mulher encontra Jesus na rua, ou melhor, pelo caminho. Ele não andava só, estava cercado de muita gente. A mulher ousou, sem medo, tocar nas vestes do "Filho do Homem" e sentiu-se curada.

O que há de extraordinário nessa passagem do Evangelho é que esta mulher estava em pecado segundo as regras de seu tempo, pois, tinha um "corrimento interno". As mulheres durante os dias de menstruação eram tidas como impuras. Homem nenhum podia tocá-las, devido o sangue, nesse caso, estar ligado à idéia de pecado no judaísmo. Logo, é nítido que ao ser curada da hemorragia por tocar em Jesus, a mulher que estava impura ininterruptamente há mais de uma década não somente tornou-se pura, como a próvida vida social e sexual foi devolvida a ela. Depois disso, entre a multidão, ela pode contemplar os olhos do Cristo virando-se para a sua direção, pois o seu toque feminino nas roupas do Mestre foi carregado de desejo e vontade. Quem quiser saber qual foi a resposta de Jesus, leia o Evangelho de Lucas 8, 43 - 48 ou o de Marcos 5, 25 - 34.

Milagres podem acontecer em todos os lugares, mas não abra mão das ruas. Vá mesmo sem ter o que fazer, somente para flanar. Tenha espírito vagabundo. Nas palavras do próprio João do Rio: "Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem... Flanar é a distinção de perambular com inteligência."

Talvez tenha sido com essa postura de flâneur que a mulher sangrando avistou Jesus, com esse seu olhar feminino e sensível à multidão na rua, pelo caminho. Fico a imaginar o que esse nosso medo pela rua não nos impossibilita de encontrar. Sem o amor pela rua perdemos muitas oportunidades. Não somente de festejar o carnaval com o povo, mas deixamos de celebrar tudo aquilo que está à mostra. Desde a miséria até os milagres. Por isso, necessitamos da mesma coragem que a mulher hemorrágica sentiu, afinal foi essa coragem que a possibilitou ver, tocar e ser curada por Jesus. Não podemos temer a multidão das ruas. No meio do povo está a nossa oportunidade de cura e salvação!

Assim, talvez tenhamos que ter uma postura como a de muitas travestis: tomar a rua como suas, mesmo que isso seja apenas porque não há outras oportunidades. Lembro-me de um depoimento autobiográfico de uma jovem travesti ao referi-se a sua saída de casa. Disse ela ao seu pai: "- Se a casa é sua, a rua é minha".

Penso que a rua e sua alma são de todos nós, até mesmo daquele meu amigo medroso. Tomara que em um dia todos nós possamos nos encontrar, sem medo nenhum, em plena rua, eu, ele, você, as travestis, o João do Rio, a mulher curada por Jesus, o Cristo, e uma multidão de gente vagabundeando à toa e muito feliz. Vai ser uma grande festa! Já imaginaram?




Tiago Duque é teólogo leigo, socioólogo formado pela PUC-Campinas e Coordenador de Articulação com Movimentos Sociais do Identidade - Grupo de Ação pela cidadania LGTTB.

 



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