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DIVINO

Por Tiago Duque
duque_tiago@hotmail.com

Oração do Pássaro

Faz certo tempo, encontrei em uma boate um amigo desolado (sim, na “noite gay” há pessoas desoladas). Ele havia passado pelo confessionário (sim, ainda há gays que se confessam).

Toda aquela desolação era porque ele havia sido repreendido. Teve o azar de procurar um sacerdote que não ouviu o apelo pastoral de acolher amorosamente os homossexuais. Tentei animá-lo dizendo que da próxima vez que fosse buscar o perdão poderia passar a ele uma lista de padres que não o repreenderia pela sua orientação sexual não heterossexual. Não adiantou, porque a experiência da rejeição estava forte. Rejeição não combina com confissão. Por mais que ele estivesse arrependido dos seus pecados, é importante esclarecer que não era o seu desejo que o incomodava, nem foi a sua sexualidade que o levou até a igreja em busca de perdão, mas no confessionário a homofobia falou mais alto. Foi para confessar “y” e acabou sendo condenado por “x”. Sacrilégio.

Penso que a experiência do meu amigo poderia ter sido outra. Caberia a ele olhar para o que foi apontado como pecado e resignificá-lo, como nunca havia feito antes. Nós que não somos aquilo que esperavam que fôssemos temos que aprender uma lição, a de reinterpretar o mundo. Digo isso porque o mundo não foi feito para ser lido pelos apontados como anormais, pecadores. Esse exercício é o mesmo que assumir certa loucura, salvífica. Porque se conseguirmos não aceitar a lógica ilógica que querem nos impor ou nos fazer acreditar, aquela de que não somos merecedores de perdão, inclusive que nos culpa por aquilo que nem cometemos, seremos muito mais felizes e tão menos desolados. A loucura nos possibilita uma outra “razão”, incompreendida, mas cheia de sentido e significado. O pecado é uma construção social, e por isso carrega valores muitas vezes pouco sagrados e muito mais hierárquicos e comprometido com a lógica de poder heterossexista e machista na qual estamos todos envolvidos.

Uma dica é fazer como o Frei Beto, que rezou assim:

“Senhor, tomai-me louco, irremediavelmente louco.
Como os poetas sem palavras para os seus poemas,
As mulheres possuídas pelo amor proibido,
Os suicidas repletos de coragem perante o medo de viver,
Os amantes que fazem do corpo a explosão da alma.
Daí-me, Senhor, o dom fascinante da loucura.
Impregnando na face miserável do pobre de Assis,
Contidos nos filmes dionisíacos de Fellini,
Resplandecente nas telas policrônicas de Van Gogh,
Presente na luta inglória de Lampião.
Quero a loucura explosiva, sem a amargura
Da razão ética as pessoas saciadas à noite pela TV.
(...)
Fazei de mim, Senhor, um louco
Embriagado pelo vosso amor
Marginalizado no rol de homens sérios
Para poder aprender a ciência do povo
Em núpcias com a Cruz que só a Fé entende
Como um louco a outro louco.”

Existem muitas maneiras de rezar, das mais contemplativas às mais agitadas, das mais silenciosas às mais barulhentas, das mais profundas às mais superficiais e das mais ingênuas às mais perigosas.

O poema “Oração do pássaro”, citado acima, é uma oração, ou no mais popular, “uma reza dessas bem porreta”, que dedico a mim, a você e aos desolados, que todos sabem que são muitos. E que, dentre todas as rezas, penso ser uma das mais perigosas, afinal, existe perigo maior de, em sendo louco, não se achar pecador?


Tiago Duque é Teólogo Leigo e Sociólogo formado pela PUC Campinas, mestrando em sociologia pela UFSCar e militante do Identidade – Grupo de Ação Pela Cidadania de Lésbicas, Gays, Travestis, Transexuais e Bissexuais

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