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| DIVINO Por Tiago Duque
A Teologia do Deus ruim
A teologia é como um presente bem embrulhado. Nos encantamos e então passamos a querer descobrir o que está escondido (ainda não revelado), movimento que se torna muito prazeroso. Mas, assim como existem péssimos presentes, também existem muitas formas de se fazer teologia, das mais libertadoras às mais opressivas e violentas. O livro que ganhei foi publicado em 2003, "Jovens - Formação afetiva e sexual" da Editora Raboni. Ele tem a pretensão de orientar palestrantes para jovens cristãos. É do Pe. Alírio José Pedrini, da Congregação dos Padres do Sagrado Coração de Jesus, da qual nunca tinha ouvido falar. Como no livro não há qualquer informação sobre o autor, resta-me uma única imagem dessa criatura e da sua escandalosa ignorância (ou seria má fé?). Não há mal nenhum em ser um padre ignorante, afinal todos somos. É a nossa ignorância que alimenta nosso aprendizado. O problema é quando a ignorância torna-se agressão, violência simbólica, ou ainda quando pretende criar adeptos e seguidores. Tudo isso é muito perigoso. A reflexão presente na 6ª Palestra (p.120) tem o equivocado título: "O Homossexualismo e o Lesbianismo", quando o mais adequado e aceito seria "A homossexualidade Masculina e Feminina" ou "Os Gays e as Lésbicas". Nesse capítulo é apresentada uma série de afirmações violentas e totalmente homofóbicas. Na interpretação do autor minha sexualidade é tratada como um "problema grave de sexualidade" e sou reconhecido como "vitima e não culpado". Como se não bastasse, o autor aponta para três causas "desse problema": "Primeira Causa: má-formação congênita", "Segunda causa: traumas de sexualidade" e "Terceira causa: a força do vício". Nas páginas seguintes apresenta um discurso teológico excludente e fundamentalista, semelhante àquele que estamos cansados de ouvir de madrugada na TV ou de forma eufórica nas praças. A típica Teologia do Deus ruim. Condenação e etnocentrismo são os conceitos centrais desse discurso, exatamente o que Jesus nunca fez. A Bíblia não responde às problemáticas do nosso tempo. Não era esse o objetivo de quem a escreveu. É muito arriscado lê-la buscando um código de ética moderno. Antes de ser um livro sagrado, e o é, é um relato histórico, carregado das limitações e riquezas de qualquer outro relato histórico. A beleza de sua mensagem está na humanidade que suas páginas carregam. Sua leitura crítica e nossa experiência de fé a faz um meio, dentre tantos outros, de salvação - resgate da nossa existência ainda tão precária. Lembro-me do alerta
bíblico: "Cuidado com os falsos profetas". Entristeço-me
com o poder de palavras que considero tão levianas! Milhares de
jovens oprimidos por uma espiritualidade fundada no terror do pecado,
da negação da liberdade, do medo, da baixa auto-estima,
da intolerância, do preconceito, da falta de acolhida e da ignorância.
Demoníaca é a legitimidade dessa espiritualidade pregada
por tantos que se dizem cristãos. Todos nós sofremos com
esse discurso e essa prática, inclusive os heterossexuais, porque
ela retira aquilo que nos é mais sagrado e do que Deus tanto se
regozija: o poder de amar sem limites. Se alguém vier a ler esse
texto e for amigo do Pe. Alírio José Pedrini, por favor,
dê um beijo nele por mim. Quem sabe o poder do amor ilumine suas
futuras palavras!
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