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DIVINO

Por Tiago Duque
duque_tiago@hotmail.com

O seminarista é gay

A Igreja só confere o sacramento da ordem a homens (viris) batizados, cujas aptidões para o exercício do ministério foram devidamente comprovadas.
Catecismo da Igreja Católica, parágrafo 1598.

Qualquer homossexual que tenha vivido sua adolescência e juventude na Igreja saberá me compreender. Há sempre uma expectativa daquele jovem que nunca namorou e sempre demonstrou cuidados com as coisas da Igreja possa se tornar padre, isto é, receber o sacramento da ordem. Tudo começa com os paroquianos e as paroquianas percebendo que toda a delicadeza nos gestos e na fala, associada a uma jeito muito particular de se revelar (nunca tirar a camisa, sempre estar com os cabelos arrumados, com as práticas religiosas em dia, pronto para a escuta e cheio de sabedoria sobre os sacramentos e a vida dos santos) pode ser sinal de vocação.

Depois de alguns anos é que fui compreender, de fato, o que acontecia; e ainda acontece muito por aí. Há um estereótipo de pessoa vocacionada que, em relação aos homens, aproxima-se do estereótipo do homossexual afeminado discreto. No meu caso, e na história de muitos outros, as falas das senhoras católicas de que eu “parecia ser seminarista”, estava ocultamente associada a de que eu tinha um “jeitinnho de viado”. Claro que ninguém falava que eu estava sendo “afetado” demais, mas, muitos com orgulho, diziam que eu tinha “jeito para padre”.

Evidentemente que, falar em esteriótipos é lembrar de características que parecem ser universalizadas, mas devemos ter em mente que sempre há uma diversidade de pessoas que não se aproximam de nenhum tipo ou modelo que queremos defender, ou acreditamos ser predominante. Em outras palavras, o que quero dizer é que, há tantos padres diversos como há milhares formas de ser gay. E uma coisa não tem nada a ver com a outra. Afinal, todos sabem que ser padre e ser gay pode não ter qualquer relação de sentido. Não é sobre a orientação sexual dos padres que quero escrever, mesmo por que, independentemente da orientação sexual destes homens, a regra para a castidade e o celibato é para todos eles.

Quero chamar a atenção para as questões de gêneros e sexualidades que a Igreja nos apresenta, para os valores que ela nos aponta em nos ver como “afeminados vocacionados” e aos desvalores que esta mesma instituição nos associa quando nos identifica, ou nos assumimos, como “homossexuais afeminados”.

Parece que existe uma estrutura perversa, porque não nos reconhece cheios de dons quando nos assumimos enquanto gays católicos, mas nos parabeniza quando nos tornamos aparentemente assexuados e muito dedicados aos trabalhos pastorais. Quando a homossexualidade vem descaradamente a tona, é como se todos os elogios dados fossem esquecidos ou equivocados. Tenho vários amigos leigos (não padres) homossexuais que falam que devo continuar militando enquanto homossexual católico, mas que jamais fariam o mesmo, porque sabem que perderiam o respeito e a autoridade que têm em sua comunidade ou paróquia. O mais curioso é que antes deles virem a mim, como gays, as próprias paroquianas e os paroquianos já me haviam alertado de suas identidades homossexuais, por suspeitarem dos “seus jeitinhos”. Isto revela que, todo mundo sabe ou desconfia, mas não é permitido ser franco e verdadeiro.

No último final de semana, conversando com um vocacionado afeminado, perguntei a ele se em sua formação inicial (ele tem apenas 18 anos) de futuro seminarista, a questão da diversidade sexual era pautada. Ele me disse que sim. E eu fiquei momentaneamente feliz, porque logo imaginei: A Igreja está discutindo sexualidade com os futuros padres para eles serem mais felizes e poderem viver os seus dons de forma mais verdadeira. Mas, logo me decepcionei, porque segundo ele a questão da homossexualidade surge como um impedimento à missão. Ele me disse que se descobrirem que alguém no seminário é gay assumido (não necessariamente no sentido de praticar, mas no sentido de dizer publicamente), logo arrumam um jeito de bani-lo (será que é verdade?). Nesse sentido estão seguindo muito bem as orientações do Papa Bento XVI, que impõem regras que dificultam os homossexuais de serem aceitos nos seminários (por exemplo: não aceitar quem tem “tendência” ou já praticou relações homossexuais). Parece que essas normas são uma tentativa de responder aos escândalos de pedofilia, o que revela o equívoco pontifício em acredita que pedofilia e homossexualidade são duas realidades próximas.

O meu desejo é que os “padres formadores de padres” se perguntem: caso eu fosse jovem, e na minha época estas regras homofóbicas existissem dessa forma tão explícitas, me deixariam entrar para o seminário? E, eu vou rezar para que a obediência ao Papa seja cumprida na orientação sobre a opção preferencial pelos pobres e jovens em suas pastorais, porque assim, seremos menos hipócritas e mais Igreja.


Obs.: escrevendo este texto, lembrei-me de um amigo que me contou sobre a visita de um padre a outro em uma cidade vizinha. Os comentários foram parar até no bar. Ele disse que o visitante era tão feminino que assustou as catequistas. Segundo suas palavras: “Nossa, pensei que o povo iria desrespeitá-lo, ele era mais “mulher” do que as freiras!”. E, depois da visita, a poeira abaixou e tudo voltou a ser como era antes. Ninguém teve coragem de pautar a discussão sobre preconceito, diversidade sexual e Igreja em nenhuma roda de discussão da comunidade.


 



Tiago Duque é Teólogo Leigo e Sociólogo formado pela PUC Campinas, mestrando em sociologia pela UFSCar e militante do Identidade – Grupo de Ação Pela Cidadania de Lésbicas, Gays, Travestis, Transexuais e Bissexuais

 



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