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Por Cris Reda
crisreda@liberte.tur.br

Homossexualidade e família

Sempre gostei muito dos gays, mas agora é diferente, me deparei com isso dentro da minha família. Meu primo de 17 anos falou que é gay e está vivendo um momento muito difícil os pais são muito preconceituosos e ele ta desesperado, angustiado e precisa muito de meu apoio, mas como ajudar nesse caso?
Ana Beatriz


“Olá! Estou escrevendo porque estou com uma certa duvida ou sei lá o que é isso”; Tenho 22 anos e tive meu primeiro relacionamento aos 18 com uma garota (nunca me relacionei com homens), quando estava com 19 sofri um abuso sexual e fiquei grávida tive o bebê que agora tem 2 anos, e desde então não tive nenhum outro relacionamento serio ate que agora estou namorando uma menina e estou gostando muito dela. Eis a minha questão; não sei como me comportar perante minha filha pois sou lésbica e não quero esconder isso, como devo reagir sem causar maiores transtornos pra ela e poder demonstrar carinho para minha namorada?

Lílian


Oi gente, tudo bem?

Os dois e-mails acima exemplificam bem as dúvidas, conflitos e desejos que permeiam a questão da homossexualidade dentro do contexto familiar.

Nossa cultura ocidental tolera a prática homossexual, mas ainda de forma bem relativa, especialmente quando essa é a realidade não do vizinho ou do personagem da novela ou filme, mas sim de nosso parente próximo ou de nós mesmos.

Os pais, sejam quais forem ou onde estiverem, têm um ponto em comum muito forte e evidente, seus filhos. Simbolicamente são tidos como produções advindas deles e portanto é desejável que não existam defeitos, diferenças ou imperfeições.

É importante que consideremos tais diferenças inadequadas aos pais como sinônimos de aspectos dos filhos não desejados ou sonhados por eles, os pais. É muito comum depositar nos descendentes de uma família a expectativa da realização de sonhos e projetos que foram frustrados na vida dos seus antecessores.

Daí termos exemplos como:
“Não fiz tal faculdade, meu filho fará...
“Não tive um bom casamento, minha filha terá...
“Não realizei tal desejo, meu filho o fará...

E assim, na expectativa da família, o filho deve ser alimentado em seu crescimento não só com a comida partilhada por todos, como também com seus sonhos, suas idealizações, os quais não necessariamente dizem respeito àquele indivíduo em si.

Não bastando este aspecto, a situação se agrava quando o filho apresenta alguma diferença a mais: é mais gordo ou magro do que é esperado, mais alto ou baixo, ouve ou é surdo, ou não pode andar ou é cego, ou é deficiente mental, ou superdotado, ou disléxico ou... homossexual. Sim, para muitos a homossexualidade está no mesmo patamar que outras patologias, embora não tenha nada a ver com elas.

Tudo isso colabora para uma reação inconsciente de culpa, ou seja, “eu produzi alguém errado” (errado = diferente) por parte das famílias e que elas avessamente manifestam através do repúdio, da rejeição, da atitude preconceituosa. E aí quem acaba por se sentir culpado é aquele filho (ou outro parente) que criminosamente, aos olhos sociais, é diverso dos sonhos dos outros apenas por ser quem realmente ele é.

Sentimentos de culpa por todos os lados, qual a luz possível no fim desse túnel?

Amenizar essa culpa, desmistificá-la! Mas de que forma? Basicamente, sugiro eu, expondo que o fato de não ter projetos iguais aos dos pais, nem tampouco uma orientação sexual ( que não é opção!) como “manda o figurino não nos torna pessoas infelizes!

Pelo contrário, vivendo quem somos e o que sonhamos verdadeiramente, é o caminho mais possível para sermos felizes! E, se podemos ser felizes, independente de como sejamos, então não há porque haver tanta culpa, nem tanto repúdio.

Simples, mas árduo. Para chegarmos nisso, auxiliada por toda minha experiência clínica, eu não vejo outro caminho melhor senão diálogo, diálogo, diálogo, sempre!

É isso o que segundo os e-mails, a Ana deve fazer em relação ao seu primo, bem como a Lílian deve fazer tranqüilamente com sua filha. Aliás, neste último caso, dois pontos são fundamentais: Lílian sabiamente não atribuiu sua homossexualidade ao abuso sexual que sofreu, já que uma coisa não tem nada a ver com outra. O outro ponto é que a criança em si é desprovida de qualquer preconceito, a não ser que isto seja ensinado a ela. Assim, quanto mais naturalmente você expuser sua vida ao seu filho(a), mais espontaneamente ele(a) verá. Além do mais a recíproca é verdadeira, os filhos também querem ver os pais felizes, assim eles se sentem mais confiantes e seguros também.

Nessas conversas é importante que não nos forcemos a ser “fortes” e “racionais” o tempo todo. Ambos os lados devem também colocar na mesa suas dúvidas, medos, formas de pensar e sentir, pois só encarando tudo isso é que podemos com o tempo chegar a um consenso e resgatar aquele amor que ficou escondido embaixo de tantos mal-entendidos.

Outro aspecto fundamental é apesar dos pesares, não abrir mão de ser quem se é e de sonhar seus sonhos apenas para contentar o outro ou ser por ele amado ou aprovado. Este outro seja quem for, tem que amar você pelo que é!.

Boa sorte!
Beijos mil,

 

* Cris Reda é psicóloga



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