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COMPORTAMENTO

Por Eduardo Gregori
edugregori@uol.com.br

O medo do amor

Para ser um filho frustrado não é preciso ser homossexual. Frustrações independem de orientação sexual. Eu, apesar de tantas lutas, tombos e vitórias, me sinto frustrado como filho. Desconstruir mães e pais faz parte de nosso crescimento e quanto mais questionamos a vida, mais mitos e heróis teremos de desconstruir. Nesssa caminhada corremos o risco de frustrações.

Há pouco mais de um mês um novo editor assumiu o a chefia da redação onde trabalho e como sentamos perto, é quase impossível não ouvir algumas de suas conversas ao telefone. Mas o que mais me surpreendeu e fascinou é o extremo carinho que ele tem com os filhos e a esposa.

"Só liguei porque estava com saudade de ouvir a sua voz", dizia ele para sua filha. Não conheço a família dele, mas creio que seus filhos ainda devem ser crianças. Não posso negar que aquelas palavras me fascinam e me deixam um tanto invejoso também. Mas uma inveja boa... Na verdade, queria ter ouvido aquilo dos meus pais quando era criança.

Durante minha infância e adolescência não me lembro de meus pais falando que me amavam. Sei que os pais amam seus filhos mas falar de amor é algo quase impossível para algumas pessoas. Muitos acreditam que expor os sentimentos é mostrar algum tipo de fraqueza. Mas quem não é frágil? Usamos escudos em nossa vida cotidiana, mas lá no fundo somos todos frágeis e carentes de um bom afago.

Depois de anos e duras penas, minha mãe venceu o medo de falar sobre amor comigo. Adoro ouvir ela dizendo que me ama, mas confesso que o tempo que ela deixou de falar foi crucial, pois da infância e ingenuidade, a gente só tem saudade quando está perto dos 40. Daí vem a frustração. Quando vamos envelhecendo e sentindo falta de tudo que não tivemos na infância.

Muitos de nós, homossexuais temos filhos, naturais ou adotados. E o que eu quero dizer a estes pais é que amem e digam isso todos os dias aos seus filhos. O sentimento é importante mas a palavra tem um efeito imenso em nossos corações. Nem só papais e mamães devem falar que amam seus filhos. Amigos e amantes também não podem esquecer disso. O amor a gente sente, mas ouvir um "Eu te amo" aquece qualquer coração e fica impregnado na alma. Caso contrário, porque será que, com quase 40 anos sentiria falta disso?

Eu tenho orgulho do meu editor. Porque ele não tem medo de falar o que lhe vai ao coração. Essa coisa de macho man é tão retrógrada quanto a Igreja Católica pregar o não uso da camisinha. Não tem razão de ser!
O amor é o sentimento mais sublime de todos. Sem ele, com certeza o mundo seria um lugar gélido e insuportável.

Você já disse "Eu te amo", hoje?
Tá esperando oque?

* Eduardo Gregori é jornalista e editor do Espaço GLS


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