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COMPORTAMENTO
Por Eduardo Gregori
editor@espacogls.com
Envelheço
na cidade
No final
de semana que passou, revi minha primeira cadelinha, uma poodle
linda chamada Charlotte. Quando meu primeiro relacionamento
terminou, há mais de 7 anos, meu ex-companheiro ficou
com ela. Ela já estava na família dele há
algum tempo e era mais dele do que nossa.
Ele mudou
de cidade e pra onde foi levou Charlotte, sua fiel companheira
de aulas de inglês, de coral (ele é maestro)
e de filmes na TV. Charlotte foi passando pela vida, adotada
por outros relacionamentos dele, tomando conta da casa.
Há
uns 6 anos não há via e nosso encontro foi triste.
Me fez pensar sobre a minha velhice. Ela deve ter uns 100
anos na idade dos cachorros. Esta surda, cega e quase muda.
Um latidinho fininho, não tem quase mais dentes e
sua língua pende para fora da boca. Ela não
me reconheceu, mas não podia exigir nada dela, de tão
senil que está. Suas caminhada pela casa é tortuosa.
Bate nas paredes, se joga nos móveis, obstáculos
que não mais vê. Charlotte se transformou numa
senhorinha já no final de vida. Mas parece ainda ter
forças pra continuar sua jornada.
Aquela
cadelinha me fez pensar sobre a velhice. Algo que sempre deixamos
para cogitar no futuro. Mas a velhice é algo inevitável.
Olho no espelho e vejo minha barba ficando branca, as rugas
no rosto, o bigode chinês, a pele deixando de ser elástica.
O processo do envelhecimento é incontestável.
E ele é iniciado, no momento em que somos concebidos.
O óvulo vira bebê, que vira criança, que
vira adolescente, que vira gente grande e que vira velho.
Mas Charlotte
me fez pensar que eu não quero ficar à mercê
da velhice. Batendo pelas paredes, cego, surdo e num mundo
só meu. Será que merecemos uma sorte desta?
Confesso que não gostaria. Sou uma pessoa tão
ativa, que me ver numa situação desta me deixa
em pânico.
Mas Charlotte
também me mostrou que, mesmo privada dos sentidos ela
continua a viver, a lutar pela vida, mesmo que ela esteja
no fim. Mas onde será o fim? Isso só Deus sabe.
Aquela cadelinha me mostrou que enquanto respira, não
vai desistir de viver.
Decisão
difícil: Viver sem uma qualidade de vida aceitável,
ou pedir pra morrer? Olhando daqui, aos 36 anos, opto pela
luta. Não quero ficar senil, mas é inevitável. É preciso
lutar, sempre, até o último segundo. Quando
eu chegar lá, e espero ficar bem velhinho, saberei
dizer melhor o que quero. É preciso sentir as dores
e as delícias pra tomar uma decisão. Uma coisa
que eu sei agora e que não vai mudar nunca é
a luta. Uma vida sem obstáculos seria algo muito sacal.
Quando mais, melhor. Só se cresce assim.
Charlotte,
mesmo sem você entender o que escrevo aqui, queria dizer
ao mundo que te amo, hoje e sempre!
* Eduardo
Gregori é jornalista e editor do Espaço
GLS
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