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COMPORTAMENTO

Por Eduardo Gregori
editor@espacogls.com

Não quero migalhas

Poucas vezes na vida passei por situações de preconceito. Estranho quando passamos por isso. Ë uma revolta, um sentimento estranho. Um clube não quis renovar a carteira de dependente do meu companheiro alegando que nossa união se "adequava" aos casos de dependência do Clube. Só pude responder que achava aquilo estranho, pois seria a renovação do terceiro ano. Não era a primeira carteira.

Liguei para os meninos do Identidade, do Direito Gay e já estava armando um furdunço quando parei pra pensar numa estratégia mais agressiva. Dizem que o ataque é a melhor defesa. Pefuei o telefone, liguei de volta para a secretaria do clube. Disse quem eu era, onde trabalhava e que além de usar isto ao meu favor, faria ainda um processo e uma manifestação na porta do clube.

Um dia se passou e eu recebo a ligação do clube dizendo que a carteira será renovada. Foi um alívio mas também foi uma revolta. Porque temos que sempre partir pra cima? Ameaçar, processar, etc. Porque não podemos ser apenas aceitos?

Nos acusam de promíscuos e quando não somos, quando resolvemos ter uma família, viver junto e ser feliz, não nos dão o direito. No Brasil pode-se tudo. É mensalão, é diretor de empresa que mantém prostitutas com o dinheiro da empresa que nem é dele, é avião presidencial de milhões de dólares, é Severino na ONU. Tudo pode, tudo vinga neste país. O que não entra na cabeça das pessoas é que a comunidade GLTB tem seus direitos. Nós pagamos todos os impostos quem nem o nossos vizinhos que tem esposa e filho.

A gente só ganhou um pouco mais de respeito porque viram em nós um saquinho de moedas de ouro, um mercado novo a conquistar. Mas será que quero ser aceito apenas pelo dinheiro que posso gastar? Eu quero muito mais. Isso é muito pouco. Eu quero andar na rua de peito aberto, de cabeça erguida e se me der vontade de abraçar meu companheiro, farei isso sem parecer que somos extraterrestres de um planeta distante.

É uma pena que temos que ganhar algumas lutas no grito e na raça. É triste ouvir "vamos abrir uma exceção". Não quero ser exceção, quero ser apenas mais um. Não quero visibilidade, quero apenas meus direitos como cidadão.

Por isso, de te chamarem de bicha, se te negarem alguma coisa que lhe é de direito, grite! Leve até as últimas conseqüências. Ninmguém espera que você lute. No Brasil, a maioria das pessoas é preguiçosa e prefere não enfrentar os obstáculos que a vida e as "pessoinhas " lhes impõe.

Por isso lute. Nunca aceite migalhas.

* Eduardo Gregori é jornalista e editor do Espaço GLS


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