|
CENA
Por Juliano Silveira
julianocts@yahoo.com.br
No escuro é
mais gostoso?
Quem nunca se jogou num
dark-room, que atire a primeira pedra ou aproveite a oportunidade
de fazer o que quiser e com quem quiser sem grandes preocupações
a respeito de um possível compromisso ou afins e se
jogue! Mas se jogue mesmo!!!
Todo mundo sabe: nas boates gays, depois de shows ou até
mesmo em horários específicos o povo se joga
no dark em busca de uma satisfação imediata,
a procura do prazer pelo prazer.
Por que o dark-room faz
tanto sucesso?
Todo mundo sabe. O que
acontece lá dentro é muito mais interessante
do que divagações a respeito de suas finalidades.
O fato é que boate com dark ferve muito mais do que
aquelas que não o possuem. Vira até estratégia
de marketing para divulgação da casa. É
habitual encontrar em flyers a especificação
de que tal lugar possui dark-room.
O dark-room torna tudo
muito mais prático e democrático. Independe
de idade ou classe social. Se você é daqueles
enrustidos, com certeza fica muito à vontade perante
as possibilidades de uma transa, de uma pegação.
Ali, ninguém vê sua cara e depois de gozar, tchau
e benção! Se você é daqueles fervidos,
entra, faz farra, tira sarro dos amigos que ali se encontram
e se joga na sacanagem. Se você é voyeur, entra,
fica num canto encostado na parede e se delicia com os gemidos
de prazer dos outros. E se você ainda encontra aquele
bofe bacanérrimo e está a fim de um sarrinho...
E se a brincadeira não estiver tão boa assim,
já que você está ali, pode surgir um pretendente
mais interessante e quem sabe...
Conheço pessoas
que vão até uma boate pelo simples fato de que
ali há um dark-room. Não querem saber se o som
vai estar bacana, qual vai ser o clima da noite, ver os amigos,
ou muito menos quem será a drag que irá se apresentar
no palco. Pelo ponto de vista de quem procura este tipo de
entretenimento, é bem interessante situar o momento
da noite gay na cidade de Campinas. Aos aficcionados por dark-room,
o que fazer nas horas em que a larica sexual aperta e as possibilidades
de se satisfazer no escurinho quase não existem?
É fato: hoje, na cidade, a única boate que oferece
este tipo de espaço é a Double Face.
Mas então tá:
você que é viciado em dark, vai uma semana, a
seguinte, e de repente o mês todo. Aí, quais
serão as possibilidades de se entreter já que
ali, você já "conheceu" todo mundo?
Sei que um dos objetivos
da cultura do dark é discrição, a omissão
de personalidade, a busca do prazer pelo prazer, uma relação
quase que impessoal. Mas todo mundo sabe que pelo tato, pelo
olfato ou até pela visão além do alcance,
uma hora ou outra reconheceremos quem esteve ali conosco,
no escurinho, no cantinho, na hora do sarro em questão.
E falta de opções dentro do dark, mesmo que
o objetivo seja uma simples gozada, é muito punk!
Fora a Double Face, quem está a fim e sabe dos lances,
sempre encontra um cantinho, mesmo que o espaço não
ofereça dark. É o caso do Clube Insano, da Loungedelux
e Subway.
Para os mais corajosos,
um bom canto escuro, um bom sofá ou uma boa cabine
no banheiro pode ser uma ótima saída. Mas aí,
qual é a graça? Onde fica o fetiche? Fora o
risco de passar o maior carão com seguranças
e afins. Afinal, ninguém é obrigado a ficar
horas na fila de um banheiro por causa de um casal - trio
ou grupo - "apaixonado" e "empolgado"
que entra numa cabine e fica lá horas e horas...
Já me joguei muito em dark e me recordo de bons e maus
momentos. A primeira vez que entrei foi justamente na Double
Face, muito antes da reforma. O dark-room era dark mesmo.
Havia um sofá de alvenaria e a coisa rolava solta ali.
Depois, no império The Club, mil histórias para
contar... De coisas que vi e fiz. De coisas que fizeram e
me contaram. Do gênero com os amigos, de enganos e deslizes.
E no Massivo, a perdição total. Enfim... Uma
época muito gostosa, mas que nem por isso sinto falta.
Hoje, pela idade ou por
puritanismo, não sou mais chegado a um dark. Pode até
rolar, mas me sinto meio que invadido. Muitos entram para
atrapalhar, para procurar amigos, ferver além da conta,
fora aqueles que acendem isqueiro convenientes no rosto das
pessoas ali presentes.
A evidência, a exposição
e a falta de privacidade passam a ser um dos primeiros precedentes
para o fim do dark: o espaço deixou de ser anônimo
para aqueles que procuravam o anonimato. Aos poucos, passou
a ser uma extensão da pista, do bar, um espaço
de colocação, ou até mesmo um local para
se conversar, ferver etc. Um espaço para socializar
o que até então não era socializado.
O aumento de furtos e roubos também poderia ser um
prenúncio: era uma carteira roubada aqui, um celular
roubado ali, um cartão de consumação
perdido e por aí vai. Para os freqüentadores do
dark, uma das primeiras lições: no dark-room
não há espaço para cabeças distraídas.
Talvez, um dos grandes motivos para o fim da era dark-room
também seja a falta de segurança que este espaço
passou a oferecer ao público. Controlar a entrada na
portaria da boate e oferecer segurança para os que
estão ali presentes é uma obrigação
da casa, mas passar a controlar quem entra ou sai de um dark
é uma outra história na qual não cabe
a responsabilidade a ninguém.
Outro fato interessante,
é o surgimento do conceito lounge na noite gay. Desde
os anos 90 este conceito cresceu e muito na noite hétero
e agora volta com tudo. De repente, tudo é lounge.
Lounge disso, lounge daquilo... O sofá passa a ser
objeto de desejo e necessidade dos espaços e aí,
o sexo passa a ser um anseio "sujo", que deve ser
banido das noites fervidas como forma de recriar um ideal
de noite: asséptica, modulada por padrões heterossexuais,
longe - ou quase - de antigas fórmulas de entretenimento
para o público gay.
Hoje, a noite se recria
de forma assexuada e nos impõe padrões de comportamento
aceitos e corretos, segundo referências datadas, sem
grandes precedentes ou inovações.
Enquanto isso, passamos
a noite sentados no sofá!
Voltar
|