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CENA

Por Juliano Silveira
julianocts@yahoo.com.br

Retrô 2005

É impressão minha ou o ano de 2005 passou rápido demais? Ou talvez a idade tenha batido e de repente, tudo corre a velocidade da luz-agora-já? Vai saber, não é mesmo? Por incrível que pareça – e parece mesmo, 2005 foi um ano bom para a cena gay de Campinas. Muita coisa rolou, muita coisa aconteceu, para a minha felicidade e de muitos. Graças a estes acontecimentos, não faltaram temas e pautas para esta singela coluna que tem o objetivo de informar para formar leitores conscientes de seu espaço e valor e de que na vida sempre há tempo para a diversão, já que são tantas as agruras que um momento de escapismo não faz mal a ninguém, não é verdade?

Inicio essa retrô com o meu total agradecimento, satisfação e felicidade quanto ao resultado desta coluna. Escrevo sobre a noite GLS neste espaço há mais de dois anos e é sempre uma surpresa ser abordado na cena pelos leitores. Os e-mails que recebo também são sempre bem vindos, sejam pelas criticas, opiniões, sugestões de pauta, fofocas e informações. Isso mostra que além do reconhecimento, há a empatia, já que a questão toda que envolve a noite, nos envolve naturalmente, pois a freqüentamos porque gostamos e precisamos de diversão. E também me dá ainda mais responsabilidade de escrever textos que sejam claros, verdadeiros, objetivos e elucidativos para todos aqueles que procuram informação sobre a cena. Muitos podem achar fútil ou puro melindre. Acho necessário simplesmente por ser uma análise, mesmo que às vezes pessoal do nosso comportamento enquanto gays. Afinal, para muitos, a noite é um espaço absolutamente importante para socializar, vivenciar e realizar ações e atitudes nem sempre liberadas no dia-a-dia. Agradeço também aos profissionais que trabalham na noite, desde os proprietários das casas, promoters, drags, DJs, enfim, todos que fazem com que a engrenagem da cena não pare nunca! E por fim, mas não menos importante, as amizades que fiz através desta coluna. Aos leitores que de uma forma ou de outra se tornaram meus colegas, amigos e companheiros de baladas e principalmente ao Eduardo Gregori, meu querido amigo e E-DI-TOR!!! que me ofereceu este espaço e me sugeriu a abordagem de tal tema. Na época não sabíamos muito bem o resultado que iria dar, mas com certeza valeu a pena à aposta.

Esta última coluna do ano tem o objetivo de ser uma retrospectiva sobre o que ocorreu na cena em 2005. Para mim foi um ano bom, cheio de surpresas como já adiantei no inicio. E 2005 foi um ano de seleção, não só para mim, mas para muitos que freqüentam a cena. Sair por sair deixou de ser uma constante – já que a questão financeira também pesou - e sair para de fato se divertir passou a ser o objetivo principal, já que foram tantas as tentativas de agarrar o público que de certa forma anda cada vez mais seletivo e informado quanto à cena e suas propostas. É claro que não é uma generalização, já que tem muita gente burra, chata e mal educada por aí. Mas como ninguém é perfeito e a democracia existe, sejamos pacientes e de certa forma condescendentes com essa gente que insiste em sair de casa. Como disseram há milênios. “Pai, eles não sabem o que fazem...”. Foi isso mesmo? Sei lá.

Party Time

As festas foram muitas, desde inaugurações a temáticas e em locais inusitados. Para não se esquecer, o ano começou com o projeto Evolution, do empresário Carlos Martins no espaço da antiga The Club. A idéia era uma label party e a primeira edição foi bem recebida pelo público em geral. Muitos que há tempos andavam enclausurados em suas casas deram pinta e carão na noite. Tive o prazer e oportunidade de discotecar para uma pista bem animada e feliz. E a felicidade também foi minha, já que fui um freqüentador assíduo do espaço na era The Club e estar dentro daquela cabine foi um momento muito especial. O projeto aos poucos perdeu sua força, principalmente ao ser assumido pelo staff da casa. Falta de divulgação e propostas nem sempre elucidativas fizeram “flopar” o que poderia se tornar mensalmente uma label party bem interessante para a nossa cena.

Calourada no Insano

O Clube Insano entrou logo em seguida numa festa super inovadora, a primeira “calourada gay”. Isso acarretou atenção da mídia – tudo o que um promoter precisa - e conseqüentemente a curiosidade do público, que compareceu em peso. E sim, para quem não acredita, haviam vários “bixos” lá! O projeto foi uma tentativa de engrenar as noites de quinta na casa, o que infelizmente não aconteceu. Outra festa realizada lá em julho, a “Parou Tudo”, também foi bem especial. Com o objetivo de reconhecer as ações positivas de pessoas ou instituições da sociedade campineira em benefício da comunidade GLTTB – Gays, Lésbicas, Travestis, Transexuais e Bissexuais, a noite foi apenas para convidados e teve como atração o transformer – lembra dos carrinhos que se transformavam em robôs e vice-versa? - Léo Áquila, aplaudido em exaustão pelos presentes.

O inusitado e mega-over ficaram por conta da festa “Lê Cirque Magic” do empresário Carlos Martins que colocou pela primeira vez quase mil bibas dentro de um espaço até então de categoria hetero, no caso, a Usina Royal. Presenças estrelares como Elke Maravilha e a top hostess paulistana Adriana Recchi fizeram a vidinha de muita gente que lá compareceu. Tive a oportunidade de discotecar na festa, o que foi bem bacana. A pistinha alternativa virou hype absurdo. Semanas depois, o mesmo espaço foi bombado pela festa “Fun Party”, parceria entre o Clube Insano e a The Club Litoral. A festa teve até duas versões de flyers, uma mais comportada para divulgação em Campinas e outra, sem comportamento algum para divulgação no litoral. A noite pode ter perdido a cara de novidade e inusitado, mas quem foi, divertiu-se horrores. Sucesso total para ambas já que a quantidade de freqüentadores mostrou que a cena gay ainda pode ser surpreendida com novas propostas.

Cine Subway

O ano de 2005 também contou com a festa super bombada em comemoração ao aniversário de três anos do Subway Lounge & Bar. Foram dois dias programados que contaram com o transformer Leo Áquila e o incrível show “Cine Subway”, com um casting lindo e altamente afinado na presença de Rubya Bittencourt, Athenna, Thuanny, Naomi, Geia, Leslie, Monique e Junia. Com certeza será um momento daqueles especiais que ficará na memória coletiva de muita gente que pôde presenciar a apresentação.

E por fim, a festa “I Like to Move It”, realizada em Souzas, no espaço Aquarella Eventos, uma casa do século XIX, toda francesa, linda, linda. A proposta foi até que interessante, mas a noite, equivocada, já que era a mesma data de inauguração da Delux.e. Eu estava no line-up de DJs, juntamente com o top Oscar Bueno, da D’Edge, mas a idéia não rolou, pois o público não compareceu em peso, mas quem esteve por lá se divertiu bastante e se extasiou com os drinks.

Open Night

No quesito inauguração tivemos a Disko Panny, com proposta legal, mas referência enganosa, já que muitos ficaram insatisfeitos quanto a questão do atendimento e recepção da casa logo em sua abertura. A espera na fila era em média de duas horas e o povo perdeu a paciência. Infelizmente, pois a casa tinha tudo para dar certo. Isso mostra de uma vez por todas que nem sempre o que vale é a intenção, mas principalmente ter know-how para a coisa.

Em São Paulo pude presenciar um fato interessante, que foi a abertura da casa G Club que pela primeira vez na história da cena gay vinculou o nome de uma casa noturna a um editorial, no caso a revista que faz a cabeça, fantasias e delírios de muita gente, a G Magazine. A idéia era até interessante, mas a casa em si não trouxe nada que poderia lembrar a ousadia da revista. Foi tudo muito normal e com cara de nada. Tanto é que logo em seguida, houve um racha na historia toda e a editoria da revista quebrou o contrato com o proprietário do espaço que logo em seguida – logo mesmo – ressurgiu com o nome Redje. Não pegou, né? Para quem acha que na capital é tudo sempre diferente e perfeito, o caso da G Club prova totalmente o contrário.

Livre Bar Staff

Outro fato bem importante – ou de fato o grande acontecimento do ano - foi a inauguração do Livre Bar, que tirou da seca a cena gay campineira que até então estava super carente de uma proposta como a do Livre, o que acarretou conseqüentemente o seu sucesso. Em poucos meses de funcionamento, o bar não parou de bombar e o povo já elegeu o sábado e o domingo como os melhores dias de freqüência. De inicio a referência ao espaço era a do Central Bar, mas os antigos freqüentadores sabiam que não tinham nada em comum. Gerou-se até uma certa polêmica que aos poucos foi apagada com a formatação de um espaço todo próprio, com propostas claras e únicas. O Livre hoje tem cara de Livre e isso é muito bacana. E o mais importante é que hoje temos um bar em Campinas voltado diretamente para nós, sem preconceitos ou exigências, apenas liberdade.

A cena também ganhou um novo cruising bar, o Tirano. Muito se falou a respeito, muitos foram e não voltaram e a falta de público, divulgação e um promoter de fato agressivo para a questão toda fez com que o bar não durasse e fechasse suas portas sem dizer ao certo a que veio. É uma pena, já que o espaço era muito bem decorado e interessante, perfeito para noites perdidas de pegação plena e um espaço assim faz muita falta na cidade.

A Delux.e também abriu suas portas depois de muita espera, diz-que-me-diz, especulações e afins. Pela primeira vez na cena uma casa é aberta com um staff completamente da noite, já que o proprietário, o DJ Tatto está aí há tempos. A reforma foi demorada, muitas expectativas foram criadas, mas valeu completamente a pena tanta demora, já que a Delux.e hoje é um dos espaços mais bonitos da cidade. Muitos reclamaram do calor insuportável devido ao não funcionamento do sistema de ar, mas até que dava um charme, tipo inferninho. Graças a deus foi tudo resolvido e a grande aposta para 2006 com certeza é a Delux.e. Discotequei na festa fechada de inauguração para um público muito animado e receptivo. Foi uma daquelas noites que também entrará para o imaginário coletivo de muitos, difícil de ser esquecida. Especial. Quanto champanhe...

Corra Lola, Corra!

A cena também viu neste segundo semestre a evasão do público. Em momento delicado, as casas passam a não ter uma freqüência de fato satisfatória, pois o público está bastante divido quanto aos espaços existentes. Muitos reclamam de falta de opções, mas hoje, em Campinas, temos finalmente milhares delas, mas será que temos na cidade tanto público assim? A evasão também pode ser verificada por várias questões, como a financeira, por exemplo. Sair todo final de semana durante o mês todo pode ser um arrocho para o bolso de qualquer individuo em momentinho clubbing. Assim, são eleitos períodos de saída, como dias, espaços ou festas pré-determinadas. Alguns preferem a região para saídas estratégicas como o Clube 9 em Piracicaba ou as festas promovidas por Dimmy Silva em Indaiatuba e outros se organizam em caravanas rumo a mega The Week, o descolado Vegas ou a tradicional e fervida Blue Space, todas na capital. Há ainda aqueles que não saem mais de casa simplesmente pelo fato de terem se cansado da falta de agressividade da cena quanto a inovações. Mas que inovações seriam estas? Mistério...

Pocket

Projetos pequenos também passaram a desviar a atenção dos gays em 2005 como no caso do bar Garagem, com proposta cultural diferenciada entre serestas, roda de samba e MPB, o bar Res, com sua proposta minimalista e moderna ao som de jazz e electro para pouquíssimos e belíssimos, o Clube Informal, que atualmente se encontra na opção de dez entre dez bibas descoladas e iniciadas, e por último, mas não menos importante, o Clube Kraft, com sua proposta voltada a iniciados, cultura eletrônica e underground, sempre com um DJ de peso em seu line-up. O interessante é que todos os locais acima citados não são locais declaradamente gays já que a presença de heterossexuais é predominante. Mas a partir da freqüência de gays e lésbicas, se tornaram locais simpáticos a presença deste publico, mesmo que este gay e esta lésbica tenham um perfil muito especifico, já que pegação, jogação e montação nem sempre fazem parte da rotina destes locais. Assim, o ano de 2005 foi importante para o ainda moderno fundamento mixed – mistura de público, seja gay, lésbica, hetero, gato, papagaio ou água mineral, que se firmou nos locais “alternativos” da cidade.

The future is the future

É difícil prever como será a cena a partir de 2006. Por enquanto, para receber o ano que se inicia, as casas estão com programação bombada de Reveillon. Quem ficar pela cidade deve se jogar mesmo. Como é um momento ainda bem fresco, de tantos espaços convivendo juntamente, a tendência é que aos poucos se segmentem cada vez mais. O que parece é o seguinte: a cena GLS de Campinas mostrou este ano que pode ainda ser uma das mais interessantes quanto a propostas e retorno do público. Assim, em 2006, com certeza veremos a abertura de mais casas, mais festas e bares com o intuito de agregar este tipo de público.

Hot Shut

Magic – festa Lê Cirque Magic
Lançamento do ano – Confessions on a Dancefloor da Madonna. O look sexy diva disco vai pegar em 2006
Show “Cine Subway”
Almôndegas Return – elas voltaram na pista do Clube Insano
Leslie Make-up Return – ela voltou, mais loura e linda do que nunca
Parada do Orgulho GLTTB em São Paulo
Parada do Orgulho GLTTB em Campinas
Re-Invention – Athenna Top, mais top e linda do que nunca
Thuanny – o ano foi dela
Inspeção do Procon e Vigilância Sanitária no Clube Insano
Edição da bombada label party Colors no Club Kraft
Secret, da Madonna, no pocket show da banda Rock Machine
Rubya Bittencourt forever
Comunidades de casas noturnas e fã clubes das drags no ORKUT
Noite beneficente na Double Face em prol da Casa da Amizade
Noite de premiação no Clube Insano
Noites de flash-back no Subway Lounge & Bar
Dragão da Delux.e
Domingos bombados no Livre Bar
Electro chega na cena com três anos de atraso
Priscila Drag – hostess e garota propaganda da Todeschini – o ano foi dela
Sucão sobrevive

 

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