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CENA
Por Juliano
Silveira
intongue@yahoo.com.br
Acampei
no Fórum Social Mundial
Entre
os dias 26 e 31 de janeiro ocorreu em Porto Alegre, Brasil,
o 5º Fórum Social Mundial. Para quem nunca ouviu
falar, este fórum surgiu em contrapartida ao Fórum
Econômico Mundial com o objetivo de discutir diretrizes
voltadas não somente ao campo social, mas também,
elencar questões e soluções para os problemas
vividos por vários segmentos da sociedade a partir
dos movimentos populares existentes no Brasil e no mundo.
O tema deste 5º fórum: "Um Outro Mundo é
Possível".
Alguns
podem questionar o seguinte - como já me questionaram:
o que eu fui fazer lá? Bom, para quem não sabe,
sou militante do movimento GLTTB aqui em Campinas. Sou associado
ao Grupo Identidade - Grupo de Ação pela Cidadania
de Lésbicas, Gays, Travestis e Transexuais. Além
disso, dentro do Identidade, desenvolvo o projeto Rede de
Casais Gays onde o Identidade é parceiro do Grupo CORSA,
criador deste projeto. Para quem acha que só de futilidades
vive quem escreve esta coluna, se engana, viu?
Bom,
como delegado do grupo Identidade, fui para Porto Alegre na
esperança de discutir de fato um outro mundo, mais
justo, mais correto, enfim, mais tudo, principalmente para
a questão da Diversidade Sexual. Estávamos com
cinco oficinas inscritas no Fórum e trabalho, com certeza
não iria faltar. Como não faltou!
Depois
de horas e horas de viajem, chego a Porto Alegre e a cidade
bomba o Fórum. Para todos os lados que se olhava, via-se
pessoas, faixas, palavras de ordem. Empolgação
total. Eis que me encaminho para o "Acampamento da Juventude"
- local onde passaria minhas noites de sono mal dormidas,
banhos mal tomados e outras coisas a mais - e me deparo com
uma outra realidade, um outro mundo, conforme o tema de discussão
proposto pelo evento. Pessoas de todas as etnias, de todos
os países, um milhão de barracas, um clima meio
que "Woodstock" de ser. No início me deu
pânico! Queria voltar, ir embora, sair correndo. Mas
não tinha como. Estava ali por um compromisso, um ideal.
Aos poucos, o que me causou estranhamento, passou a ser natural:
militantes de movimentos sociais, neo-punks, skinheads, neo-hippies,
bills, universitários, patricinhas, inúteis,
bêbados, drogados...E eu.
No mundo
de fora do acampamento, ocorriam as oficinas programadas dentro
da grade do evento, assim como programações
paralelas: shows, apresentações artísticas,
festas e afins. Há, e festa, era o que não faltava
no mundo de dentro do acampamento. Em cada canto um estilo,
um som, desde rock progressivo dos anos 70, até funk-pancadão
pela madrugada afora, bem ao lado da minha barraca.
No dia-a-dia
daquele mundo alternativo, questões rotineiras como
tomar banho ou utilizar o banheiro para as devidas necessidades
fisiológicas eram um caso à parte. Gerava toda
uma especulação, articulação e
sorte. Banho tipo BBB5 e banheiro químico, ninguém
merece, mas na hora da necessidade, esquece-se dos privilégios
de uma vida capitalista e segura e fazer o quê, dá-lhe
mostrar o corpinho e passar mal dentro de uma cabine provavelmente
com uns 50 graus de temperatura devido ao calor.
Comer
era uma coisa tipo safári. Caçar uma barraca
com algo comestível e barato era coisa para especialista.
Ao passar dos dias, dava para sacar onde era bacana comer,
onde era caro, onde a comida era ruim - comida, coisa rara
no acampamento, virou moeda corrente. E dá-lhe escambo!
E não
é que dentro do acampamento, até leis próprias
foram criadas de forma meio que espontânea? Como por
exemplo, no caso de alguns espertinhos de fora do acampamento,
gatunos, saturnos e burros, auxiliados pela falta de organização
e segurança do espaço, tentaram assaltar as
barracas...Ledo engano: eram espancados até ficarem
desolados e detonados no chão. Chama a ambulância
querida!
Por fim,
quando se está totalmente inserido na máquina
alternativa, progressiva e popular do Acampamento da Juventude,
chega a hora de ir embora. E não é que dá
um certo baque? Tipo, justo agora que está tudo bem,
que eu não me incomodo mais com os gritos, as loucuras,
a falta de banheiro, de banho, justo agora tenho que ir embora?
Tem, tem que ir sim, pois acabou!
Como
experiência, foi algo mais do que produtivo para mim.
Não posso dizer que mudei, que foi algo determinante
na minha vida. Uma das minhas conclusões foi de que
dependo determinantemente das coisas materiais proporcionadas
por nossa sociedade capitalista e comodista como banheiro,
chuveiro quente, comida de qualidade ou até um bom
fast-food. E não abro mão disso.
Em contrapartida,
viver os dias que vivi naquele acampamento, me fez sentir
parte de um todo, não somente de um movimento específico.
Me senti respeitado como indivíduo, como diferente,
como um ser pensante e consciente de que a luta não
pode ser solitária. E que no mundo todo, existem pessoas
que sabem disso e que lutam por isso. Estão juntas
e são solidárias. Independente da poeira fortíssima
do acampamento que não sai da pele, nem com reza braba!
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