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CENA
Por Juliano
Silveira
intongue@yahoo.com.br
Saudosismo,
confissões, questionamentos e afins
Desde
que o mundo é mundo a noite proporciona aos gays um
momento de pura liberdade. Muitos aguardam a chegada do final
de semana para assim se entregar aos prazeres de estar numa
boa pista de boate, caçar, beber, encontrar os amigos,
passar a noite toda no lounge, fazer carão ou nos casos
dos mais enrustidos, uma ótima oportunidade para vivenciar
sua homossexualidade dentro do dark room. Como impôs
para o mundo na década de 70 o filme "Thank's
God, It's Friday" com a musa Donna Summer, sábado
- um dia forte para a cena - é dia de se jogar, e muito!
Campinas
entrou para a história do inconsciente gay ao ser inaugurada
na cidade a maior boate GLS da América Latina, a The
Club. Foi o início de uma era em que todos os preceitos
do fundamento GLS coexistiram, se afirmaram e representaram
para aqueles que a freqüentaram o ideal de diversão.
Lá, logo na porta, via-se o conceito de drag-queen
se afirmar na cidade através da figura de Sasha que
se tornou a primeira top hostess da cidade.
Havia
também os gogo-boys a despertar violentamente o desejo
mais intimo de qualquer ser que se movesse. Vários
saíram de lá para o estrelato, como Álvaro
Viana, Michael, entre outros. A pista era mágica, com
uma vibe impressionante onde se criava todo um conceito de
música e estilo que se vê até hoje. A
figura do DJ também passou a ser endeusada ali, na
representação de Ricardo NB e César Machia,
reflexo do fundamento underground de raves e afins. No pacote
ainda os shows de drags altamente produzidos, encabeçados
pelo talento indiscutível de Heloá Meirelles
e Rubya Bittencourt. Para muitos, uma oportunidade única
de conferir de perto estrelas da noite paulistana como Silvetty
Montila, Dimmy Kieer, Nany People, Leo Áquila, entre
outras.
Ainda
no mesmo espaço, outra grande estrela da noite recebia
os freqüentadores de braços, botões e zíperes
abertos: o dark-room era um sucesso de critica e de publico.
Por fim, não menos importante, o próprio público
que era o mais mixed possível, juntando em um mesmo
ambiente Gays, Lésbicas, Travestis, Transexuais, Bissexuais,
Heterossexuais e "curiosos/indefinidos". Além
dos pára-quedistas, claro, interessados em diversão
desencanada e liberada.
Na The
Club todo dia era dia de festa. Assim, toda sexta-feira e
todo sábado havia um tema diferente e seus respectivos
shows e decoração específica com muita
produção e muita pompa. Quem não se lembra
das festas de Halloween? E com certeza, a festa mais esperada
de todas, as de comemoração de aniversário
da casa que atraía não só o público
da região como também a capital e outros estados.
Era chegar, entrar na fila e rezar para entrar. Horas e horas
de agonia, de ferveção, confusão e claro,
um bom momento para se conhecer pessoas, já que a média
de tempo de espera chegava a mais de duas horas. E depois
de estar lá dentro, ninguém queria que a noite
acabasse.
Sem mais
nem menos, um zum-zum-zum de que abriria uma nova casa. E
de fato foi aberta em meio a expectativas e especulações.
O Massivo até que conseguiu durante alguns meses arrebatar
o público da The Club. Assim, institui-se na noite
os prós e contra Massivo e prós e contra The
Club. Institui-se também, pelo próprio público,
a noite de sexta para ida ao Massivo e a noite de sábado
para ida a The Club. E funcionava. Massivo fechou perante
especulações e freqüência de público
duvidosa, mas com certeza foi um momento de glória
para quem chegou a freqüenta-lo já que vinha com
toda uma bagagem histórica do próprio clube
de São Paulo. Mas o clima, ambiente e propostas, eram
claramente adaptados a realidade campineira.
Entre
os dois espaços ainda havia a Double Face com seu mixed
de michês e travestis, no auge da máxima coletiva
que dizia que o espaço era baixaria, entre outros adjetivos
do mesmo nível. O que poucos sabiam era que o espaço
levava - e leva até hoje - a máxima do underground
da noite gay de Campinas. Naquela época, clubbers ortodoxos
freqüentavam a casa, numa proposta mesmo que despretensiosa
do que poderíamos considerar o que hoje seria o conceito
de after-hours. E ainda, foi responsável por lançar
na cidade - e repercutir para todo os estado - vários
talentos, como Heloá Meirelles, Joyce Meirelles, Athenna,
entre muitas outras. Era sempre um frenesi quando alguma nova
drag despontava por lá. Como por exemplo, no caso da
Athenna, todos comentaram na época que havia uma nova
drag na cidade, que a mesma fazia uma linha andrógina
etc. E a boate bombava com vários curiosos para conferir
quem era a drag. Hoje, completando 16 anos de existência,
a Double Face - junto com o Open Bar que está em funcionamento
há 14 anos - pode ser considerada como o espaço
de mais longevidade da noite gay. Fiel ao seu estilo, consegue
unir em um mesmo espaço pessoas de todos os segmentos,
culturas e afins. E consegue também ser underground
no seu mais puro fundamento: diversão.
Depois
de quase uma década de funcionamento da The Club, a
fórmula se dissipou. Especificamente com a abertura
do Ultralounge onde uma nova proposta de noite foi apresentada
e fundamentada que acabou por atrair um público cansado
da repetição e ávidos por novidades.
Todo o formato de noite GLS criado pela The Club foi colocado
em xeque. O Ultralounge Campinas, assim como sua matriz em
São Paulo não apostava em drag-queens, nem gogo-boys
e muito menos dark-room o que refletiu num espaço assexuado
- pela teoria. Institui-se o "ser VIP" como grau
máximo de aceitação, assim como um comportamento
obrigatoriamente hype. Mas havia estilo e muito: no som -
drag-hits fundidos com electrohouse ("Satisfaction"
de Benny Benassi foi lançado lá), crossover
entre moda e comportamento gay e ainda, o lançamento
da então modelo Kely Souza no papel de hostess que
acabou por representar todo o conceito da casa, despertando
no coletivo o desejo de glamour, descolândia e inspiração.
Outra grande sacada foi o fechamento da casa, independentemente
do motivo em seu auge o que trouxe surpresa e inconformismo
para seus freqüentadores.
Após
os acontecimentos citados acima, o que se viu na cena foi
uma certa regressão: a Kiss nasceu flopada numa mal
sucedida tentativa de resgatar o conceito de superclube. Mesmo
após uma inauguração emocionada e saudosista
para os que lá estiveram, o fantasma do passado ainda
rondava o espaço - o mesmo que a The Club. A Misty
teve seus momentos em Barão Geraldo, mas passou desapercebida
para a maioria. Veio o Espaço e Bar The Club numa grotesca
cópia do Ultralounge e até a Loungedeluxe, com
mais pretensão do que conceito.
Tivemos
também alguns acertos como no caso do Subway Lounge
& Bar que aproveitou o modismo do conceito lounge e se
instalou no coração de um dos bairros mais tradicionais
da cidade, o Cambuí. E finalmente o Clube Insano cuja
proposta demorou a ser definida. Se no início seria
um reflexo da estética vigente - público mix,
lounge, sem drag-queen, sem gogo-boy, sem dark-room. Hoje,
resgata todo um conceito anos 90: principalmente a figura
da drag - principal representação da casa na
imagem da hostess Priscilla.
No quesito
bares, a cena gay de Campinas também pode vivenciar
nos anos 90 as mais diversas experimentações
cujos principais momentos ocorreram no Espaço e Bar
The Club, La Lupa para culminar na experimentação
e fusão de moda, música, comportamento do Central
Bar. Tiveram também seus momentos o Maracujá,
Garota Bibi, Nosso Escritório Bar, Triângulo,
Opção, Referência e Oásis, cada
um com seu grau de importância e respectivo público.
Depois
de tantas propostas, tentativas e idéias, chegamos
a atual fase da cena: a pura falta de ausência de novidades,
propostas e comprometimento com o público. Freqüentar
um local ou outro deixou de ser opção, mas justamente
a falta dela. Nisso, o público chegou ao auge de invadir
um local heterossexual e tomar posse dele, mesmo que seja
uma contrariedade. Falo do Sucão, localizado na praça
Bento Quirino - calçada do chopp, já que seu
proprietário afirmou que o bar não é
destinado a tal público. Absurdo, não é
mesmo? Tão absurdo que o público têm sido
alvo de discriminação. Muitos não sabem
ou não ligam. A regressão as vezes é
tanta que chegará um momento em que os estabelecimentos
passarão a exigir dress-code. Imagine ter que correr
atrás de um fraque e cartola para entrar em um determinado
lugar?
Uma das
atuais salvações para a cena foi a abertura
do Livre Bar. Ao trazer a palavra liberdade como seu principal
conceito, o espaço acerta em cheio um público
ávido por novidades, mesmo que este público
ainda esteja de certa forma fechado para inovações.
E como nem tudo está perdido, neste segundo semestre
chega a Delux.e. Escrita assim mesmo: Delux ponto e. O espaço
será o mesmo da Loungedeluxe. As reformas estão
em processo de finalização e quem sabe aí
teremos uma nova fase na cena campineira.
Ainda
no processo de estagnação, muitos preferem migrar
para locais até então de uma freqüência
não gay, como no caso dos bares Clube Informal e Garagem,
ambos com características fortes e, portanto, destinados
a iniciados. O primeiro traz um approach moderno, pautado
no conceitual e na informação. O segundo aposta
na boemia e performances culturais. Ambos acertam e se tornam
alternativas. Neste pacote entra o Open Bar, que está
na praça há 14 anos. Voltado exclusivamente
para as lésbicas, passa a agregar a cada semana mais
e mais gays à procura de diversão simples e
desencanada.
Se neste
momento estamos num processo devagar, quase para estacionar,
deve-se considerar também uma série de fatores
que refletem a atual cena. O público GLS como costuma
ser dito é considerado o mais exigente, mas também
é o mais volúvel. E talvez, para ocorrer uma
inversão de papéis quando os empresários
da noite deixarem um pouco o lucro de lado e investirem mais
em propostas e conceitos, poderemos ter uma cena tão
forte quanto nos anos 90.
Enquanto
isso vamos esperar pacientemente sentados no lounge, ou caçando
no dark room, ou no bar com nossos drinques e cervejas na
mão ou a gritar na pista "Eu sou a piranha do
banheiro", que graças, passou a ser o hit da temporada
e nos lembra que somos gays, fervidos e gostamos de um bom
babado. Pode demorar uma década ou menos. Quem sabe?
* Juliano
Silveira é jornalista e coordenador do Grupo
Identidade.
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