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CENA
Por Juliano Silveira
julianocts@yahoo.com.br
Será que ela
vem?
O título acima se
refere a uma festa promovida em homenagem à Madonna
em sua primeira - e única - vinda ao Brasil. Era novembro
de 1993. O show: "The Girlie Show" e a resposta
à pergunta: não, ela não foi na festa.
E quem quase não foi ao show fui eu!!! Eu, bibinha
de 17 anos, alucinado, fanático por Madonna, cadastrado
em fã-clube e tudo. A estréia do show no Brasil
seria em São Paulo, dia 3 de novembro, quarta-feira,
dia do meu aniversário. Minha mãe não
queria que eu fosse ao show em hipótese alguma. Até
hoje não sei ao certo o real motivo. Talvez, por depender
na época financeiramente da sua boa vontade, a palavra
final até então era a dela.
Semanas antes ao
show estava depressivo. Não saía de casa, não
ia à escola, não falava com ninguém.
Havia me inscrito em uma promoção da Rádio
Educadora. Você deixava o número de seu telefone
cadastrado na rádio que entraria em contato em qualquer
horário do dia - sem aviso, lógico. Ao atender
deveria responder: "Educadora, a rádio oficial
da Madonna!". Ao responder corretamente, ganharia ingressos
para o show da cantora em São Paulo. Perdi duas semanas
de aula, inclusive provas...Se alguém de casa atendesse
o telefone, havia uma folha de papel sulfite com a frase citada
acima...Imagina a minha avó atendendo o telefone e
dizendo: "Educadora, a rádio Oficial da Madonna!"...Mas
todo sacrifício era válido, pois era a única
de ir ao show. Meu telefone não foi sorteado...
No dia do show em São Paulo, de manhã, dia também
do meu aniversário, minha avó me acorda com
uma "grande surpresa": um poster, copo plástico,
display e uma faixa, tudo oficial da turnê. Fiquei absurdamente
feliz com aquele presente. Meu sonho realizado...Mas não
achava o ingresso no pacote...E minha avó: "Ingresso
não tem...". Chorei, chorei e chorei. Naquele
dia recebi telefonemas de deus e o mundo, todos com um grandioso
"PARABÉNS, 18 ANOS!!!". E eu, no âmago
de minha depressão respondia com um sofrível
e pequeno "obrigado". Os amigos que não me
ligaram haviam me parabenizado no dia anterior, pois estariam
no show. Eu queria a morte...Fiquei na cama do dia inteiro.
Não liguei TV, rádio, não li jornal,
não queria saber de nenhuma notícia referente
ao show. Minha vida acabava ali e Madonna, nunca mais!
Por um milagre divino, por uma dádiva, por um lapso,
por ter se sensibilizado com a minha deprimente situação
ou simplesmente por ter maior poder de voz que minha mãe,
meu avô resolveu bancar minha ida ao show. O mundo parou
naquele momento. Fiquei sem reação. Ele havia
me questionado se não era isso que eu queria, por que
então ficar com aquela cara de bode, etc. O que ele
não entendeu era que EU não havia entendido
muito bem o que havia acontecido, o por que desta decisão...E
também, naquela altura, não era importante questionar
ou entender algo.
Uma coisa era fato: ganhei o melhor presente de aniversário
de toda a minha vida: ir ao show da Madonna!!! De acordo com
o meu salvador - meu avô - São Paulo não
dava mais tempo. Eram 6 horas da tarde e seria arriscado ficar
nas mãos de cambistas. Sozinho no show eu também
não iria. Assim, na manhã de sábado,
dia 6 de novembro de 1993, junto à caravana da Caprioli
Turismo, fui para o Rio de Janeiro assistir ao vivo o "The
Girlie Show" em pleno Maracanã! Se fosse escrever
uma biografia, este com certeza seria um dos momentos mais
felizes da minha vida...Para entrar no clima, durante os dois
dias que antecederam o show no Rio, ouvi todos os discos e
fitas - cd player não era popular em 93 - assisti incansavelmente
shows antigos, "Na Cama com Madonna", "Immaculate
Collection" e folheei o livro "Sex" como se
fosse a bíblia.
Se me perguntarem
hoje como foi o show, não saberei responder. Me lembro
sim das 3 primeiras performances: "Erotica", "Fever"
e "Vogue". Do resto, vem tudo em "flash"
na minha cabeça tipo o indefectível - e até
então nem tão popular - "E aí???"
gritado pela cantora encima de um globo de espelhos na performance
de "Deeper and Deeper". A adrenalina era tanta que
gritei e chorei do início ao fim do show. Só
fiquei sabendo que "Justify my Love" estava no set
list ao ver o show futuramente em vídeo. Coisas que
acontecem quando se é fanático...Mas nem por
isso deixou de valer a pena. Na frase que caracteriza as ações
obrigatórias do indivíduo como plantar uma árvore,
escrever um livro, ter um filho, enfim, nesta escala deveria
constar o seguinte: na adolescência, ir ao show de seu
artista preferido...
Depois do show, meu interesse por Madonna não foi mais
o mesmo. Talvez tanta emoção tenha causado algum
trauma. Hoje, compro cds, assisto clips, comento, mais porque
gosto e por ser fã mesmo e não mais por obsessão
ou fanatismo. Lembro que em 1994, ao lançar "Bedtime
Stories", assisti o vídeo de "Secret"
no "Fantástico". Ao ver aquele visual "bagaceira
de luxo" fiquei fissurado...O que eu fiz? Como ela estava
com um piercing no nariz, procurei uma boa bijuteria de minha
mãe, fui até o banheiro e furei meu nariz. É
claro que o resultado não foi o mesmo. No colégio
ninguém entendeu ao certo o que havia acontecido. Depois
de alguns dias, aquilo inflamou e o resto é história.
Futuramente, quando o meu nariz voltou a ser o mesmo, descobri
como e onde colocar um piercing de forma adequada, sem aquele
risco e sofrimento todo. Com um profissional foi muito mais
simples. Após este auge, comecei a despender minha
atenção e energia aos homens acima de 35 anos
de idade e também para as supermodels - Naomi, Cindy,
Linda, Kate, Christy.
Madonna é sempre Madonna. Independente de ela estar
em uma fase "chata" ou "careta", como
muitos dizem. Mas depois da fase "Erotica", ela
iria fazer o que? Dar uma de Rita Cadilac e se jogar na indústria
pornô? E outra, Madonna ainda funciona. No final dos
anos 90 quando Dj´s de renome passaram a remixar seus
singles, Madonna tomou conta das pistas. Haja vista o clima
de "Ray of Light" de 1998. E querendo ou não,
Madonna ainda continua objeto de discussão, polêmica,
e polarizadora de tendências. Antes dela, alguém
sabia o que era a "Cabala"?
Enfim: depois de 10 anos de sua primeira vinda ao Brasil,
a pergunta que não quer calar: Será que ela
vem? "Drowned World Tour" não veio. Há
especulações referentes a "Re-Invention
Tour" que conforme a critica, é um dos shows mais
caretas na carreira da cantora. Sai o sexo e entra a violência
- caminho já sinalizado no show anterior. Até
o repertório não ajuda muito. Para os curiosos,
no site www.madonnalicius.com
há um download com cenas de vários momentos
do show. Segundo a imprensa, a diva já lançou
o seu cachê para sua vinda ao Brasil: mais de 1 milhão
de dólares. Imaginem o preço do ingresso...mas
vale à pena, né? Mas para mim é algo
meio que óbvio. Independente de críticas, com
certeza ela se reinventou. Mesmo que numa versão mais
assexuada, mais light e menos polêmica de si mesma.
Será que ela vem?
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