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CENA

Por Juliano Silveira
intongue@yahoo.com.br


Ready 2 Wear

A moda de uma forma ou de outra sempre fez parte de nosso segmento desde simples consumidores a disseminadores de estilo, tendências e modismos. Isso vem de longa data, mais especificamente dos anos setenta, onde estilistas gays reinaram absolutos na construção de uma identidade de moda no país. Para citar um exemplo, basta lembrar do sucesso de Clodovil, que ditava tendências e comportamento no eixo Rio-São Paulo e conquistava não somente estrelas globais, mas também todo o jet-set a procura de novidades, chiqueria e exclusividade.

Os anos setenta também foram anos de grandes mudanças de comportamento, não só para as mulheres, mas também para os homens, respaldados por toda uma filosofia de paz, amor e liberação sexual. E claro, a moda fez com que os homens, independente de sua orientação sexual se expressassem de acordo com seus ideais, fantasias e desejos, sem medo de exposições ou criticas. O importante era ousar. A imagem do hoje deputado federal Fernando Gabeira vestido com uma sunga minimíssima de crochê é antológica.

No Brasil, a era disco causou furor em muitos jovens, que em busca de novidades e escapismo das agruras causadas pelos anos de chumbo - ditadura militar - se encontraram num som sensual e liberal, a disco music e corriam para as discotecas, não muito diferente do que se é hoje, como se todo o sábado fosse o último de suas vidas. A novela "Dancing Days", marco da televisão brasileira disseminou pela primeira vez ao mainstrean toda uma cultura de noite vigente na época. A marca é tão forte, que até hoje em dia, clássicos como "I Will Survive" de Gloria Gaynor, "Dancing Queens" do Abba ou até mesmo qualquer hit da diva Donna Summer faz sucesso nas pistas, seja gay ou straight. Mas a atitude é claramente gay.

Atitude é a palavra que mais pode representar o segmento gay, não somente na moda, na maneira de se vestir, mas também na música, no comportamento e tudo o que envolve experimentação de algo que seja novo. Na música, por exemplo, desde os anos setenta, o que se tocava nas discotecas, chegava cerca de um a dois anos depois para os espaços heterossexuais - não muito diferente de hoje. Assim como a maneira de se vestir também era primeiramente colocada em exposição pelos gays mais antenados, freqüentadores da noite, para depois ser copiada pelos heteros seja nas tendências, estilos ou excessos.

Recentemente, toda esta questão de disseminar tendências de moda através do segmento gay pôde ser verificada nos anos noventa, onde a cultura de noite underground passou a dar seus primeiros passos. Como a época pregava diversão desenfreada, sem limites, mas com uma certa inocência e romantismo, nada melhor do que se inspirar nos anos setenta para chegar a tal resultado. Assim, milhares de brechós passaram a ser invadidos por um público a procura de peças exclusivas, de fundamento setentista. O importante era o estilo e o efeito. Eu mesmo cheguei a usar calças e mais calças do meu avô. A banda Deee-Lite era a imagem pregada e a atitude era totalmente blasé e absurda, fundamentada no vídeo "Vogue" da Madonna e a "montação" - palavra pinçada representada pela maneira excessiva de se vestir das drags ainda não conhecidas pelo mainstrean - fazia com que não houvesse limites na produção. Valia plataformas, calças boca de sino, veludo, pelúcia, sintéticos, plumas e paetês, só não valia repetir o modelão. Talvez esta atitude de ser único e procurar se diferenciar através de uma produção exagerada seja um reflexo ainda dos anos oitenta, quando muitos gays, cansados da falta de criatividade, sisudez, sobriedade e força que a moda pregava, para ter certa exclusividade na maneira de se vestir, procuravam costureiras ou até mesmo produziam suas próprias roupas, uma forma de se diferenciar da maioria na noite.

Um grande marco da cultura e moda gay nos anos noventa foi a feira itinerante Mercado Mundo Mix, berço de toda uma disseminação de comportamento underground onde estilistas como Mario Queiros, Alexandre Herchovicht, entre outros, fizeram a cabeça de muitos gays em busca de peças que de certa forma eram novas e exclusivas perante a massificação da moda em geral, principalmente nos grandes magazines. E quem melhor do que um gay para segurar uma camisa de tela transparente? Hoje, qualquer vocalista de dupla sertaneja, banda de axé ou grupo de pagode veste uma camisa destas, mas há dez anos era considerada uma grande atitude. Assim, o Mercado Mundo Mix perpetuou através de seus freqüentadores, principalmente os gays, não somente estilo, mas também um comportamento de fato moderno e almejado por muitos outsiders.

O comportamento gay tomou conta do inconsciente coletivo de vez com a criação da sigla GLS - Gays, Lésbicas e Simpatizantes, onde passamos a ter uma cara, uma vida e um estilo que pregava o bom gosto, alto poder aquisitivo (?), hedonismo, respeito e a liberdade - para não se falar na liberação - a qualquer preço. Pela primeira vez se falava nas lésbicas como consumidoras e assim, denominou-se "lesbian chic" todas aquelas que iam à direção contrária a um comportamento e forma de se vestir mais masculinizada. Em 1998 a novela global "Torre de Babel" colocou em evidência este estilo através de duas personagens "lesbian chic" representadas pelas top atrizes Christiani Torlone e Silvia Pfeifeir. As personagens não foram bem aceitas pelo público, pois morreram no inicio da novela na explosão de um shopping, mas mostrou-se para a mídia em geral uma imagem copiada por muitas mulheres heterossexuais em busca de uma maneira funcional, prática e chique em se vestir para encarar o dia-a-dia.

A funcionalidade e a praticidade foram justamente as coadjuvantes na quebra de uma moda considerada gay até então pregada pelo underground. Por último, nesta seqüência, a explosão da cultura de noite, já que "montação" não mais combinava com a maratona de raves, pistas bombadas e "pegação" nas boates. As plataformas e coturnos deram lugar aos tênis, os casacos de pelúcia e plumas cederam espaço para as camisetas, que aos poucos saíram dos corpos que as vestiam para restar apenas a pele nua e por fim, tornou-se brega vestir roupas de brechó. Hoje, o vestir-se para a noite pode ser considerado o mesmo vestir para dar um pulo na padaria da esquina, já que quanto "menos" gay se parecer, melhor para a imagem. Claro que aí não se enquadra apenas a mudança de comportamento, mas também a transformação do mercado de moda em geral, já que hoje, os grandes magazines são os principais centros de consumo tanto de gays quanto de straights e funcionalidade e praticidade vendem e muito, para qualquer que seja a orientação sexual do consumidor.

Atualmente, um momento ou outro o segmento gay lança um modismo, como no caso dos mocassins caramelo usados exaustivamente com calças jeans dobradas nas barras. Depois de um período de uma ou duas estações chegaram ao mainstrean, como hoje, as camisetas com nome de países chegaram nos grandes magazines que apostam neste item para consumo. As marcas de luxo também, como no caso da Ellus que colocou em sua coleção camisetas com pequenas bandeiras bordadas. Uma exceção é a camiseta baby-look. Peça obrigatória em qualquer guarda-roupa fez a cabeça e o modelão de muitos e se tornou uma iconografia da moda gay nos anos noventa e continua até hoje, firme e forte, mas agora classificada em sua etiqueta através das letras PP. Assim, não é mais preciso comprar camisetas femininas ou infantis para ficarem coladas ao corpo.

Iconografia da moda e comportamento gay nos anos 70, 80, 90 e dias atuais:

· Anos 70

Época do "desbunde" onde toda ousadia era permitida. O corpo ainda não havia passado por transformações. A imagem era totalmente slim. Assim, os magros imperavam. Plataformas, calças boca de sino com cós altíssimo, camisetas de tricô ajustadas ao corpo, certa etnia, psicodelismo e ar folk. Cor é preciso. Camisas bufantes e muitas bijoux. Disco music é a trilha oficial e ousadia é a palavra de ordem. Liberalidade sexual. Ser afeminado é ser natural.

· Anos 80

O corpo começa a sofrer modificações. Saudável é freqüentar academias. Impera a ginástica aeróbica. As roupas passam a ter uma modelagem estruturada. Blazer com ombreiras duvidosas, calças com pregas, calças semi-baggs, camisetas, cores ácidas, certo ar punk. Surge o conceito "unisex", isto é, tanto para homem, quanto para mulher. O estilo gótico cai nas graças dos alternativos e rebeldia e escapismo são as palavras de ordem. Rock é a trilha oficial. Explode a AIDS. Ser bissexual é ser natural.

· Anos 90

O corpo muda devido à explosão de complementos alimentares, anabolizantes e exaustivos exercícios em academias. Surgem as barbies, objeto de desejo. Saudável é ter músculos. Camisetas ajustadas, cores básicas, e o estilo militar caem nas graças através de coturnos e correntes de identificação. Por outro lado, a montação impera através de roupas compradas em brechós. Anos setenta é a década de referência para a moda em geral. Explode a cultura underground e todo o movimento de música eletrônica, assim como as drag-queens. É preciso ser único. Tatuagens e piercings chegam ao mainstrean. Funcionalidade e praticidade passam a ser o novo ideal ao se vestir. O tênis se transforma na iconografia da década. Baby-look. Alternativo é a palavra de ordem. Sexo seguro. A prática sexual se divide radicalmente entre ser passivo ou ativo. Ser másculo é ser natural.

· Anos 2000

O corpo passa a ser mais natural em contra partida aos excessos dos anos noventa. A moda prega a liberdade de estilo. A "logomania" impera e marcas internacionais de luxo tornam-se objetos de desejo. Nem a montação, nem a praticidade e funcionalidade de antes, mas sim a individualidade sem excessos. Criatividade em baixa. Os grandes magazines passam a ser disseminadores de estilo. Camisetas estampadas, jeans e tênis. O esportivo toma conta do guarda-roupa. Resquícios da cultura de noite dos anos noventa. Individualidade é a palavra de ordem. Sexo nem sempre seguro geram práticas de risco. Ser discreto é ser natural.



* Juliano Silveira é jornalista e coordenador do Grupo Identidade.




 

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