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CENA

Por Juliano Silveira
julianocts@yahoo.com.br

Retrospectiva 2004


O ano de 2004 trouxe um certo agito para a cena noturna campineira. No meio da dança das cadeiras a noite de certa forma se estabilizou e mostrou que é possível apresentar propostas interessantes, mesmo que segmentadas e assim dar ao público diversão sem levar muito em conta a pretensão. Prova disso é que o povo se jogou nas boates pra valer, aderiu suas propostas de uma forma única e a concorrência acirrada fez com que as casas repensassem seus ideais.

A palavra que pode dar significado ao que aconteceu no primeiro semestre na cena noturna de 2004 é "Concorrência" que impôs de vez o VIP como vedete e deixou o público confuso. Para onde ir se tudo é de graça? Onde me achar se não conheço a dinâmica do espaço? Isso se resolve no segundo semestre, quando as casas passam a ter uma cara e filosofias próprias. A palavra que define este momento é "Equilíbrio".

Boates: uma questão de ordem

A cena em 2004 teve início no segundo semestre de 2003 com o diz-que-me-diz do fechamento da Ultralounge, fechamento do Espaço e Bar, a inauguração da Misty em Barão Geraldo para culminar na inauguração da Heaven em Vinhedo, da Kiss - antigo espaço da The Club e por aí vai. Confuso, não? Mais ou menos.

A Ultralounge foi um marco na cidade, e seu encerramento ocorreu em meio a uma cena forte. Para muitos, foi mais ou menos aquela história: a festa acaba em sua melhor hora - mesmo com ameaças de interdição da Prefeitura, estrutura meio que mal cuidada, falta de novidades e afins. Conforme informações, um dos sócios teria projetos em São Paulo - Cambridge, sabe como? Aí já é outra história.

Já o Espaço e Bar não estava em seu melhor momento. Falta de público e organização, staff cansado... Fechou sem nenhum alarde, diferente da Ultralounge que colocou sua última noite anunciada a quatro ventos. Ambas as casas passavam por situações difíceis, com problemas na estrutura, acústica, etc. Junta-se tudo e mais a força de outro grande empresariado da noite e é inaugurada a Loungedeluxe.

A Loungedeluxe quis ser hype e conseguiu. Mesmo que alguns chamem o local de "Longedoluxo" aos poucos deixou de ser uma sucursal da Ultralounge e estabeleceu uma noite própria. Ainda mais no segundo semestre. O espaço foi e é gongado horrores por ser um antro de "wanna be's", mas ninguém pode negar o sucesso da casa. Mas eis que já existem rumores de seu fechamento. Problemas com acústica e trá-lá-lá...

Um fato relevante em 2004 foi a inauguração - e o brevíssimo funcionamento - da Kiss. Com um forte marketing não só na cidade, mas também em toda a região, muito já se falava de sua abertura, sem mesmo uma data ainda prevista. Mas no dia da inauguração a cena era totalmente dejá-vu, mesmo para quem tenha gostado - como eu gostei - de estar naquele espaço onde muito tempo funcionou a The Club. Não colou. A cidade/público estava em outro momento. Espaços grandes foram substituídos pelos pequenos. A impessoalidade deu espaço a aproximação/exclusão entre os clãs, assim como a falta de novidades do espaço (re) inaugurado não convenceu o público a voltar. Assim, depois de praticamente um mês de funcionamento - e a abertura de uma nova casa, o Clube Insano - a Kiss fecha e junto a esse fim, coloca por terra a proposta de superclubes na cidade.

Tivemos também outros momentos tipo velocidade da luz como a inauguração da boate/churrascaria Misty em Barão Geraldo no final de 2003 e seu silencioso fechamento no início de 2004 e a inauguração da boate Heaven em Vinhedo - que deu o que falar com gente muito louca subindo e descendo suas escadas - e seu inusitado fechamento e reabertura com praticamente o mesmo staff em Campinas, intitulada Clube Insano.

Com uma certa pretensão, o Clube Insano quis ser hype. Com a top hostess Keli Lima conseguiu concorrer com a Loungedeluxe ao atingir seu público de "wanna be's", mas derrapou ao não se afirmar quanto a uma casa gay ou mixed. "Wanna be's" não gostaram da estrutura e apresentação da casa com seus shows e voltaram para a Loungedeluxe. E nessa de ter ou não ter show, de ser mixed ou gay, o Clube Insano troca metade de seu staff e passa a se acertar e a se classificar como espaço gay. Falta apenas uma coisa: estabelecer uma cena mais agressiva, sem muitas alterações em sua programação. Quem se lembra de como eram as noites de sexta e sábado na extinta The Club? Um nome diferente para cada noite, uma festa diferente para cada noite. Isso já foi, já era.

Quanto a uma cena forte e agressiva na cidade de Campinas, mais uma vez quem ganha - se vale algum prêmio - é a Double Face. Após comemorar 13 anos de idade em 2004, a cena lá rolou e forte. Diógenes pesou no tribal e o mixed de show, dark-room e underground ainda funcionam.

Bares - Saudades do Central, mas tudo bem...

O ano de 2004 foi muito fraco no quesito bar. No final de 2003 tivemos um suposto e pretensioso surgimento de glamour e hype, nos moldes a la Central Bar com o funcionamento caseiro do bar La Nave Gula, localizado no coração do Cambuí. Com festas de aniversários lotados, som moderno e público mix tinha tudo para dar certo. A falta de informação e comprometimento do dono/gerência pôs tudo a baixo. Resultado: não pegou. E ainda por cima, todo o staff saiu com uma mão na frente e outra atrás. Assim, fica comprovado mais do que nunca que a noite é para quem sabe e não para quem faz de conta que sabe.

Exemplo disso é o Subway Lounge e Bar. Mistura de bar e boate e um público maduro completou dois anos em 2004 e pelo que tudo indica, continuará por mais tempo a agradar aos seres noturnos, em busca de diversão, aventuras, MPB, música eletrônica e afins.

Já o Open Bar teve uma tentativa sem grandes pretensões de agregar o público gay masculino no meio da semana. O público alvo, não acostumado a baladas que ocorrem antes das quintas-feiras não aderiu e a tentativa não pegou.

Toda a carência de um espaço específico e novo culmina na firmação do Sucão localizado na praça Bento Quirino, Centro da cidade como Q.G. oficial de bills descoladas, quá-quás, finas e trashs da cidade. Depois de muita luta - muitos não sabem que no bar ocorreram casos de discriminação - o local se tornou uma opção para um happy hour desencanado, um point para um encontro às escuras um encontro com os amigos ou simplesmente namorar bem à vontade. O bar passou por altos e baixos devido a problemas causados pelo público, ficou visado pela polícia, ficou infrequentável e voltou a ser freqüentável. Abraçou a Parada do Orgulho GLTTB de 2004 e é atualmente passagem obrigatória de promoters descolados. Claro, todos os gays da cidade passam por lá uma hora ou outra. E uma coisa é fato: o ano de 2004 estabeleceu o Sucão como referência de bar gay assumido na cidade de Campinas.

Rapidinhas em 2004

A cena em 2004 se completa com alguns momentos que não podem passar desapercebidos. Uns bons, outros nem tanto. Uns no truque, outros de pura delícia. Assim, seguem abaixo alguns fatos pertinentes a 2004 que com certeza foi de muita atitude para a cena em geral:

Dark-Room it's over? - no primeiro semestre do ano, público e donos de estabelecimentos gays decidem que é chique ser lounge e a cultura do dark-room é deixada de lado. No segundo semestre, público exige o retorno da sala escura e mais que depressa, em alguns espaços, o dark volta a imperar.

Mixed é o conceito - ninguém quer ser mais gay, lésbica, travesti, transexual, bissexual, samambaia ou hot-dog. Todos querem ser mixed. Assim, este conceito é agregado na cena noturna campineira com um certo desfalque em relação às propostas oferecidas pelas casas.

Where are the Drags? - 2004 deu um tempo nos shows cansativos e elegeu ao mesmo tempo as tops que mereceram estar em evidência: Brynna, Athena, e Monique.

Star Quality - Rubya Bittencourt

I wanna be like her!
- Thuanny com um séqüito de seguidores.

Come Back!
- volta do DJ César Machia na noite.

Electro
- o estilo cresce em 2004. Pega em festinhas íntimas, wanna be's, iniciados e descolados se jogam. Na noite, entra disfarçado para não gongar a pista.

Good Luck! Good Luck!
- Skol Beats, edição 2004: Basement Jaxxx, Fischerspooner, entre outras delícias eletrônicas. Foi demais.

Filme e trilha sonora - Party Monster - a história do club kid Michael Alig interpretado pelo ex-kid Macaulay Culkin conta o início da cena eletrônica em Nova York na década de 90. "Money, success, fame and glamour!"

Médulla da Bjork - ousar e é preciso. Bjork em seu momento mais difícil e introspectivo. Mágico.

Franz Ferdinand e Scissior Sisters - bandas do ano. "Take em Out" e "Confortably Numb" são puras delícias!

Stop! - "Try On My On", Whitney Houston. Pode ser considerado o hino do ano. Mas será que alguém ainda agüenta?

Parada do Orgulho em Sampa - uma Campinas inteira na Avenida Paulista. Surto, susto e comoção coletiva.

Parada Parou Tudo em Campinas! - a Parada do Orgulho de Campinas abriu novos rumos para a história da militância GLTTB na cidade. Mais de cinco mil pessoas nas ruas do centro. Parou tudo!

Insanity 54 - com produção a la anos 90 a festa do Clube Insano abalou o Campinas Hall em julho.

Papel Cultural - com decoração a la boteco e programação pra lá de cultural como chorinho, rock progressivo e exposições, o bar localizado na Julio de Mesquita próximo ao City Bar promete ser o novo La Lupa.

Susto! - dia 29 de outubro, Subway Lounge e Bar: show da Geia numa performance neopunk ao dublar Nina Hagen (New York, New York). Quem viu ficou passado. Geia, a Marcelona campineira.

Fashion Passion na Oca, Ibirapuera/SP - a maior exposição de moda já feita na América Latina. Emoção, acima de tudo. Ver um modelo Chanel original da década de 20 cara-a-cara é de chorar.

Soldier Hostess 1 - Marine, Subway Lounge e Bar e Keli Lima, Clube Insano. Tudo de bom e mais um pouco.

Hype - Loungedeluxe é hype, Exposé é hype, tudo lá é hype!

Pegadeira! - o termo pega não só na boca da Djnane, personagem da atriz Elisangela na novela Senhora do Destino, mas também na boca das bills pegadeiras de plantão.

Truque - semifinal Felinos, edição 2004, Subway Lounge e Bar, dia 13 de novembro: o concurso quase não aconteceu. Simplesmente os boys que iriam participar da semifinal viajaram devido ao feriado do dia 15 de novembro. Organizadores correram atrás dos bofes presentes no espaço para que substituíssem os originais. Foi uó, ainda mais pelo fato de o boy da casa ter ganhado o concurso.

Consciência e Ferveção - festa do Grupo Identidade no Clube Insano, dia 27 de novembro. Foi tudo!

Soldier Hostess 2 - saída de Keli Lima do Clube Insano (?).

Adeus Ano Velho! - todas as casas abrem com programação específica para a virada do ano.

E o Futuro? - Como dizem, o futuro a deus pertence! Que venha 2005 e que a cena gay campineira nos surpreenda todas as noites! E aí, eu caio da cama...

 

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